quarta-feira, 30 de junho de 2010

ARRIAR a BANDEIRA

Acabou-se a farsa
arregacem as mangas e enfrentem os lobos
ou serão por eles devorados

AS BANDEIRINHAS

A minha querida pátria

a pátria

os camões

os aviões

e os gagos-coutinhos

coitadinhos

a pátria

e os mesmos

aldrabões

recém-chegados

à democracia social

era fatal

(e mais não transcrevo)

Mário-Henrique Leiria

Desde os jardins-de-infância à primária, as criancinhas ficaram submersas de bandeirinhas e bandeirolas; os educadores, professores e todo o pessoal de apoio desunharam-se para inventar actividades que permitissem levedar, ainda no berço, o amor pela pátria do futebol ou pelo futebol da pátria - nunca separando estas duas entidades - não há futebol sem pátria nem pátria sem futebol.

Às crianças de fraldas, e que mal se aguentam nas canetas, colocam-lhes a pertinente questão: qual é o teu clube? Gostas mais do Ronaldo ou do teu pai?

E como qualquer papagaio amestrado, a pobre criancinha, na sua ingenuidade, repete o que o papá, desde o berço, lhe vem atazanando às orelhas para gáudio e orgulho dos progenitores que, pressurosos, registam a gracinha no livro do bebé: no dia x com quinze meses…

E porque os roteiros estão na moda, eu fiz o meu “roteiro pela primária” recolhendo extractos de redacções que os mestres-escola impuseram aos petizes, tal como o momento histórico o exigiu: “Escrevam sobre a bandeira”?

«Eu só gosto das bandeiras quando há vento, as bandeirinhas deviam ser vendidas com vento e tudo.»

«A minha bandeira é muita fixe; eu gosto muito da minha bandeira quando Portugal ganha, quando perde o meu pai esconde a bandeira.»

«Se, quando for grande me mandarem para a guerra quero ser porta-bandeira como nos filmes; o porta-bandeira não dá tiros e como não ataca, peço ao capitão para ir atrás dos soldados, porque é menos perigoso e não se suja a bandeira.»

«Eu gosto muito da bandeira das esquinas, o meu pai disse-me que bandeira de esquinas só há uma a nossa e mais nenhuma, e que bandeira que não tem esquinas é redonda e que é muito bom termos a bandeira das esquinas; não percebi por quê mas eu também gosto de bandeiras com esquinas; é fixe ter esquinas nas bandeiras.»

«O pau da bandeira da minha escola é de ferro; para melhor avaliar a minha professora perguntei-lhe se podemos dizer ferro de bandeira.»

«Uma bandeira desfraldada é assim como uma bandeira sem fralda, não sabia que as bandeiras também tinham fraldas. Quem é que muda a fralda à bandeira?»

«Arvorar a bandeira é colocar a bandeira na árvore e hasteá-la é pendurá-la na haste de um boi ou de uma vaca, tanto faz.»

«O meu pai ri-se muito com tantas bandeirinhas; diz que se ri a bandeiras despregadas. Eu não sabia que as bandeiras despregadas faziam rir tanto! As bandeiras pregadas não fazem rir. Porquê?»

«Nos táxis, mesmo sem bandeira, pagamos sempre a bandeirada. Não está certo! Só devíamos pagar a bandeirada quando tivesse bandeira. Prontos!»

«O meu pai também acha que andamos a embandeirar em arco, que temos a mania, que seria melhor termos juízo, que acabamos por levar sempre com o arco da bandeira na pinha, tropeçamos no arco e esborrachamos a trombeta.»

«Eu gosto é da bandeira preta dos piratas com a caveira e as tíbias. Quando for grande quero ser pirata com a pala no olho a fingir e sem perna de pau mas o meu pai diz, e ele é que sabe, que os piratas agora são ainda mais perigosos e andam em aviões a jacto sem bandeira e com guarda-costas.»

domingo, 27 de junho de 2010

Os “MERCADOS”



Os “MERCADOS

A nossa vida é condicionada pelos mercados. O nosso futuro depende dos mercados. No altar do “mercado livre” vivemos reféns e prostrados frente aos mercados. Não nos conseguimos livrar dos mercados. Os banksters manobram e impõem os mercados.

Nós, nós somos mercadoria!

Há os mercados financeiros, mercados de capitais, mercados obrigacionistas, mercados de acções. E os mercados de instrumentos derivados. Os mercados de economias emergentes e os mercados internacionais. O Japão quer acalmar os mercados e os mercados estão a ser focados na reunião dos líderes dos G20. Os mercados estão cada vez mais difíceis. Os chineses animam os mercados. Os mercados reagem à liquidez no mercado. Os mercados voltam a atenção para a reunião da Reserva Federal. A oposição espanhola critica a presidência “governada” pelos mercados. O FMI elogia a actuação dos mercados emergentes que sobreviveram à crise. Os mercados retomam em pressão alta. Os mercados estão a ficar com medo. Os mercados de obrigações cada vez mais nervosos. Os mercados bateram no fundo.

Nãopessoas nos mercados; os mercados são virtuais.

De vocábulo impregnado de ruralidade, “mercado” entra no mundo da criminalidade.

Nem as palavras escapam!

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quarta-feira, 23 de junho de 2010

HAVERÁ CRISE?



SUSPIROS, LAMENTOS E LAMÚRIAS

“Uma tristeza cheia de pavor esfria-me.”

Demogorgon – Álvaro de Campos

Uma manhã soalheira, um dia como qualquer outro na capital de um país que de seu pouco mais tem que a bandeira; mas havia sol, esse que quando nasce, dizem ser para todos. Dizem…

Encontrava-me numa das ruas que vai desembocar no Marquês de Pombal, artéria movimentada, invadida por escritórios, e com a correspondente densidade demográfica daí decorrente.

Entrei no café, aproximei-me do balcão e, quando me preparava para encomendar a rotineira bica, a senhora a quem me ia dirigir soltava um profundo suspiro que mais se afirmava como lamento.

Respondendo à interrogação do meu olhar com um sorriso triste, indicou as mesas vazias e, como que a pedir desculpa, exclamou: é isto!

“As despesas fixas vão aumentando, a concorrência é enorme, a clientela escasseia, de dia para dia, e a que ainda aparece vem reduzindo os gastos.”

E continuou:

“Neste edifício a maior parte dos escritórios fecharam; e nos que restam quase todo o pessoal está a prazo, e com os baixos salários de que usufruem, a bica habitual torna-se num luxo.”

Já não era a justificação do suspiro, nem parecia que se me dirigisse, as frases iam saindo como um lamento ou lamúria ou talvez desabafo.

“Tinha quatro empregadas, agora só tenho duas, e são imigrantes. Aceitam salários mais baixos. Compreende?...”

De forma desajeitada esbocei um: É pena… a vossa classe, quando se encontrava um pouco mais desafogada, insurgia-se contra as greves, achava que os trabalhadores estavam sempre a exigir melhores vencimentos, mais segurança e… não pensaram que são os trabalhadores, que têm o salário assegurado, os vossos principais clientes.

Os grandes senhores, os que ganham milhares de contos por mês, não é aqui que vêm tomar o pequeno-almoço, comer um bolo, beber um café. A vossa prosperidade depende totalmente do bem-estar da classe média, que também está sendo espoliada de direitos, direitos que foram adquiridos por todos aqueles que nada mais possuem que a sua força de trabalho.

Nunca pensou nisto, pois não?

A senhora fixava-me com um olhar vago, não sei se concordando comigo se continuando a pensar no negócio que tantas preocupações lhe causava.

Mais um suspiro e num murmúrio desabafou: “investi aqui as minhas últimas economias e já não tenho idade para encontrar trabalho. Nós os pequeninos somos esmagados como formigas, isto está bom é para os grandes, os muito grandes.”

E por aqui nos ficámos.

Um outro comerciante, sujeito inteligente, depois de me servir e antes que eu saísse, procurou fazer conversa, detendo-me durante algum tempo no estabelecimento, e dada a convergência de pontos de vista acabou por me confessar: procuro entreter os clientes para manter a casa composta.

“Um estabelecimento vazio afasta a clientela. A pastelaria, o café, o restaurante ou a taberna são espaços sociais, as pessoas sentem-se bem acompanhadas, além de que um estabelecimento cheio faz pressupor que o produto é bom ou que a relação qualidade preço é, no mínimo, aceitável.”

Fez questão de me oferecer um café e acabámos por nos sentar; a necessidade de falar, de extravasar as preocupações acumuladas. Era urgente a catarse, sentia-se.

Sem perda de tempo continuou: “Levamos uma vida de faz-de-conta; fazemos de conta que somos patrões, fazemos de conta que tudo vai bem. Denunciar as nossas dificuldades só nos dificulta a comunicação; na generalidade, as pessoas sentem-se melhor com os que têm uma vida desafogada, como se tivessem receio que as dificuldades e as preocupações sejam contagiosas; estar junto dos que vencem dá-lhes mais segurança.”

E num discurso magoado continuou:

“A exclusão social começa a fazer-se sentir não só sobre os que nada têm, mas também sobre os que vão deslizando para o nada ter. Por isso é necessário ludibriá-los, defendermo-nos dando-lhes a ilusão de que tudo vai bem. Esta sociedade cilindra todos os que não vencem, sem questionar que meios utilizam os pretensos vencedores.”

Levantei-me e agradeci-lhe a atenção. De olhos marejados e voz embargada pediu-me para voltar, gostava de conversar comigo. Disse. E com um sorriso triste concluiu: Sabe; tenho necessidade de falar.


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segunda-feira, 21 de junho de 2010

REVIVER A HISTÓRIA


Lemos na sua fisionomia a determinação

O revolucionário que enfrentou os esbirros do fascismo em pleno tribunal
e os julgou

Não faltem!


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sábado, 19 de junho de 2010

Saramago, os "bem-pensantes" e alguns farsantes


Desenho gentilmente cedido por Fernando Campos - Blog "o sítio dos desenhos"


As vozes que nos poderiam trazer sinceridade e emoção não se ouvem porque ninguém as vai chamar. Intelectuais de reconhecida craveira, como por exemplo Manuel Gusmão e José Barata Moura, além do mais camaradas de José Saramago, são ignorados pelos media.

Os nossos "bem-pensantes", governantes e muitos tratantes, numa verborreia que lhes é comum espalham saliva sobre a tumba de Saramago: quepoisnão obstante o que nos divide, e o país, e o Nobel, e mais alguma caspa que cai em salamaleques para as câmaras de televisão, cumprem o ritual próprio dos farsantes.

José Saramago vira-lhes as costas e parte com o seu elefante; e os "bem-pensantes", cumprida a tarefa, vão raspando dos sovacos a lama que na primeira oportunidade lhe sujará a memória.

sexta-feira, 18 de junho de 2010

quarta-feira, 16 de junho de 2010

VIDA DE SAPO


O PSD pretende ainda mais repressão laboral que o PS finge rejeitar
a história repete-se: o mau e o bom PIDE

VIDA DE SAPO

Meio-dia. No lamaçal dos feijoeiros, o sapo, ainda ensonado, trabalhava. As formigas, aproveitando os caniços derrubados, encurtavam caminho numa lufa-lufa estonteante. Não muito longe, no brasido do feno, as cigarras espalhavam um cântico acre.

De catadura triste, o jovem sapo, que só de noite trabalhava, cansado por tantas horas suplementares, deteve-se para melhor ouvir a cantoria, sentindo ele, também, vontade de entoar uma modinha.

Quando os sapos cantarem em coro como as cigarras, pensou, quais Chaliapines, farão estremecer o povoado. E, de modo desajeitado sorria, enquanto divagava sobre o que seria a vida, mesmo a de um sapo, se o folgar fosse o justo prémio do seu labor.

“Se o folgar fosse também o justo prémio do labor!…” Este luminoso embrião de consciência surgira não sabe bem como.

Será que a consciência brota da reflexão assim de modo expontâneo, ou tem fortes alicerces em tudo o que nos rodeia, na vida, em suma?

Teria sido esse acto impensado, embora natural, de questionar a existência, que lhe dera o prenúncio de satisfação jamais sentida?

Olhou as formigas e voltou a ficar deprimido. Para quê tanta azáfama? “É uma loucura”, disse a meia voz.

No coaxo do mais velho dos companheiros leu reprovação: “A vida de sapo é como a das formigas, temos outro ritmo mas a mesma sina”. Sentenciou.

O som estridente das cigarras tornara-se-lhe num zunido dorido, frémito insuportável, quase uma maldição. Porque é que as cigarras, nocivas ao agricultor, viviam à tripa forra, enquanto ele trabalhador forçado, de utilidade incontestada tinha sina diferente?

As contradições são o húmus em que melhor se desenvolve e fortalece a consciência. Apercebeu-se que não sendo alheio ao que se passava em seu redor, questionando e questionando-se, tornava-se diferente e nada em seu redor voltava a ser igual.

Pensar, reflectir, que esforço e espinhosa caminhada para o desassossego! Horrível dilema o seu: viver acachapado na dormência de todos os dias, ou sair para a claridade da razão onde habita a intranquilidade?

E tu camponês amigo, companheiro de infortúnio, que pensas de tudo isto? Perguntou o sapo soerguendo-se pela primeira vez.

A minha sorte está ligada à tua, camarada. Com o teu suor o mato hostil dá lugar à horta, pequenos paraísos de onde brotam as novidades que te ajudo a criar, e, não obstante, o nosso fado é só de sofrimento e intranquilidade.

Todos os outros sapos iam queimando a existência como espectadores da vida e de “novelas” imbecis, enquanto as cigarras cantavam.

Em horas de maior sofrimento lamentavam-se, aceitando a dor como um destino, e as cigarras riam.

As “novelas” e o seu próprio viver baixavam ainda mais de nível, levando a que os sapos se imiscuissem em “argumentos” canalhas de uma dita “vida real”, e as cigarras no seu canto de escárnio entravam em delírio.

A culpa não é das cigarras, é de sua natureza cantar. Enquanto não questionarmos a nossa existência, pensou o sapo, as cigarras folgarão sobre o nosso suor. Impunes!

sábado, 12 de junho de 2010

13 de Junho de 2005 - Até sempre camarada!


Nãomemória de alguém que tivesse provocado em todos os sectores da população, e de um modo espontâneo, uma tão grande vaga de pesar, manifestada de modo tão sentido, tão amplo e tão profundo. Não se consegue vislumbrar que uma outra qualquer personalidade consiga igualar semelhante manifestação.




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sexta-feira, 11 de junho de 2010

Eugénio de Andrade - não esquecemos o homem e o poeta

Não esqueceremos o homem e o poeta
Eugénio de Andrade
(19 de Janeiro de 1923 - 13 de Junho de 2005)



As palavras
 
São como um cristal,
as palavras.
Algumas, um punhal,
um incêndio.
Outras,
orvalho apenas.
 
Secretas vêm, cheias de memória.
Inseguras navegam:
barcos ou beijos,
as águas estremecem.
 
Desamparadas, inocentes,
leves.
Tecidas são de luz
e são a noite.
E mesmo pálidas
verdes paraísos lembram ainda.
 
Quem as escuta? Quem
as recolhe, assim,
cruéis, desfeitas,
nas suas conchas puras?
 
                   Eugénio de Andrade



"a Vasco Gonçalves

Nesses
dias era sílaba a sílaba que chegavas.
Quem conheça o sul e a sua transparência
também sabe que no verão pelas veredas
da
cal a crispação da sombra caminha devagar.
De
tanta palavra que disseste algumas
se perdiam, outras duram
ainda, são lume
breve arado ceia de pobre roupa remendada.
Habitavas a
terra, o comum da terra, e a paixão
era morada e instrumento de alegria.
Esses eras tu: inclinação da água. Na margem
vento areias lábios, tudo ardia."

Eugénio de Andrade,


 
 É urgente o amor
 
 
É urgente o Amor,
É urgente um barco no mar.
 
É urgente destruir certas palavras
ódio, solidão e crueldade,
alguns lamentos,
muitas espadas.
 
É urgente inventar alegria,
multiplicar os beijos, as searas,
é urgente descobrir rosas e rios
e manhãs claras.
 
Cai o silêncio nos ombros,
e a luz impura até doer.
É urgente o amor, 
É urgente permanecer.
 
                    Eugénio de Andrade
 


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