quarta-feira, 19 de junho de 2013

António Aleixo



António Aleixo

   Acho uma moral ruim
 
trazer o vulgo enganado:
 
mandarem fazer assim
 
e eles fazerem assado.
 
   Sou um dos membros malditos
 
dessa falsa sociedade
 
que, baseada nos mitos,
 
pode roubar à vontade.
 
   Esses por quem não te interessas
 
produzem quanto consomes:
 
vivem das suas promessas
 
ganhando o pão que tu comes.
 
   Não me dêem mais desgostos
 
porque sei raciocinar
 
os burros estão dispostos
 
a sofrer sem protestar!
 
   Esta mascarada enorme
 
com que o mundo nos aldraba,
 
dura enquanto o povo dorme,
 
quando ele acordar, acaba.
 


   O oiro, o cobre e a prata,
  
que correm p’lo mundo fora,
   servem
sempre de arreata
   p’ra
levar burros à nora.


 
   Que o mundo está mal, dizemos,
    e vai de
mal a pior;
    e,
afinal, nada fazemos
    p’ra
que ele seja melhor.
 
   Se os homens chegam a ver
  
por que razão se consomem,
   o
homem deixa de ser
   o
lobo do outro homem.

segunda-feira, 17 de junho de 2013

Manifesto no Parlamento Europeu pelo Multilinguismo



Manifesto da Deputada Inês Cristina Zuber, do Partido Comunista Português, ao Presidente do Parlamento Europeu Martin Schulz.

Senhor Presidente do Parlamento Europeu,
 

Consagrado nos Tratados europeus, o multilinguismo reflecte a diversidade cultural e linguística da União Europeia. Este é um princípio fundamental para tomar o conteúdo da discussão nas instituições europeias mais acessível e transparente para os cidadãos, o que constitui uma garantia de funcionamento democrático.
No
Parlamento Europeu, todas as línguas comunitárias têm a mesma importância: todos os documentos são publicados em todas as línguas oficiais da União Europeia e cada deputado tem direito a exprimir-se na língua oficial da sua preferência.
Estes princípios da União Europeia no que se refere ao multilinguismo estão vertidos no Regimento do Parlamento Europeu, Artigo 146, que expressa que os deputados têm o direito de usar da palavra no Parlamento Europeu na língua oficial da sua escolha.
Ora, hoje, dia 29 de Maio, na reunião da Comissão do Emprego e dos Assuntos Sociais do Parlamento Europeu, da qual sou uma das Vice- Presidentes, fui confrontada com a impossibilidade de intervir em Português uma vez que não havia interpretação disponível. O Secretariado da Comissão informou-me que apenas no período da tarde haveria lugar à interpretação de Português.
Esta
situação não é, infelizmente, única. Em geral, as reuniões da Comissão da Cultura e da Educação – da qual sou membro suplentenão têm interpretação em português. Por outro lado, são cada vez mais
os
relatórios e pareceres, em várias Comissões, em que nos é requerido que apresentemos emendas em inglês. Nas sessões plenárias, as resoluções têm estado disponíveis em português, por diversas vezes, apenas na noite anterior ao dia da votação, o que impossibilita a sua análise cuidada e aprofundada.
Perante a violação de um dos princípios da União Europeia – o multilinguismo enquanto garante da igualdade de tratamento e do funcionamento democrático e transparente – venho formalmente apresentar um protesto por discriminação relativamente a Portugal e à sua língua oficial, o Português.
Espero,
Senhor Presidente, que urgentemente seja reposto o princípio do multilinguismo no Parlamento Europeu, quer se trate no trabalho em Comissões, na tradução de documentos necessários para o bom desempenho da função de deputadopara o qual fui eleita pelos Portugueses – ou, ainda, nas Sessões Plenárias.
Informo-o,
Senhor Presidente, que vou dar conhecimento público deste protesto.
Com os meus melhores cumprimentos,

Inês Zuber.

(foi transcrito deste blog) 

sábado, 15 de junho de 2013

Um doloroso silêncio

15 de Junho de 2005



Um doloroso silêncio

Atraída por um sentimento difuso, de todas as artérias convergentes à Praça do Chile, a tristeza tornava-se multidão. Uma amálgama de classes sociais de três gerações unidas numa dor comum. Não dialogavam, olhavam-se surpresas procurando a resposta, o porquê de ali se encontrarem esperando que surgisse, numa lágrima ou soluço, a resposta que a dor retida recusava. 

Um cravo vermelho floria junto ao rosto de uma jovem que, abraçando-o, aguardava o momento de o devolver a quem até ali a trouxera sem disso ter conhecimento. A flor pertencia a quem lhe dera o mais perfeito exemplo de como se constrói a liberdade. Pálida, de semblante carregado, de quando em vez erguia-se em bicos de pés de entre o povo que a envolvia, não descortinando mais do que gente caminhando em sua direcção. Dentes cerrados, olhos marejados, um homem vigoroso engolia um soluço. Ninguém se saudava, poucos se conheciam, tinham no entanto um compromisso comum, uma dívida a saldar e aguardavam o credor. Se alguém soltasse a centelha de dor que a custo retinha faria explodir a mágoa que cada vez mais se adensava, aguardando o extravasar da angústia.

Em comunhão, todos sentiam que algo de diferente acontecera, que a história na sua pulsão inexorável continuaria o seu curso mas que havia perdido um protagonista que deixara marca indelével no seu percurso. Um jovem casal de mãos dadas retido no espaço e como que parado no tempo, um ancião esgueirando-se por entre a multidão caminhando num labirinto de interrogações procurava a saída que não esperava encontrar. Esgotava-se a tarde, um bruaà como indicador faz convergir todos os olhares para o cortejo que, ao longe, se vislumbrava em nossa direcção. vem, murmurava-se como se anunciássemos a chegada de um amigo a um encontro combinado, vem pronunciava-se num murmúrio abafado pela emoção. Foi o nosso último e derradeiro encontro. Lançámos-lhe cravos como gritos de silêncio porque as palavras surgiam deslocadas.

A maior manifestação de reconhecimento e dor de que se guarda memória, não se antevendo quem possa suscitar igual merecimento.