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Governo repensa modelo dos briefings
para “eliminar ruído”

«Poiares Maduro e Pedro Lomba são tão-somente o fascismo a
bater-nos ao de leve à porta»
por OSCAR MASCARENHAS - provedor do leitor DN - 03 agosto 2013
Aldrabões. Não
faço por menos.
Mandam as artes e manhas
dos artigos de opinião
que não se diga logo
ao que vem o autor, para
manter o leitor agarrado
ao prazer do texto. Mas
desta vez, iconoclasta
como me quero, finto
as regras e vou direto
ao assunto: os senhores
(professores doutores
ou doutorandos e mais
o que desejarem ser no currículo
e na mercearia do bairro)
Miguel Poiares Maduro e Pedro Lomba,
nos poucos dias
que levam de governo,
já deram provas de
terem sido aldrabões. Não digo que
o sejam, que não sou tão
pateta e desajeitado que
abra um alçapão legal
sob os meus próprios
pés perante juristas
assim ditos tão
eminentes: afirmo que
o foram. Episódica e admito que
corrigivelmente.
E vou mais longe: nos
poucos dias em
que estes governantes
exerceram o poder, o fascismo deu
um passo em
frente. Nem lhes
vou dizer que limpem as mãos
à parede, porque
podem espalhar a peste, a cólera
e a tinha. Lavem-nas, com
sabão azul e branco
e, de caminho - vão
ao banho!
Caro leitor:
custou muito chegar à liberdade
de imprensa e ainda mais
firmar em lei
os valores civilizacionais que
não deixassem que certos
produtos nascidos de uma faísca
de ferradura de um cavalo
da guarda a raspar no basalto
de uma viela os pudessem alterar a seu
bel-prazer. Impusemo-nos, jornalistas,
liderados pelo Sindicato menos
corporativo que conheço - e mais
atacado pelos que
venderam a alma e o talento
por dois réis
de mel coado ao patrãozinho querido
ou ao governozinho de ocasião
- normas de respeito pelos
direitos do público que
raros são os países
que as têm. Há os que
falham - há muitas falhas -, mas
os jornalistas e, mais
importante do que eles,
o público, sabem dizer quando
falham.
E, no meio desta longa
e custosa aprendizagem e tentativa
de bem servir, sai de vez
em quando uma personagem
de Gil Vicente, o Parvo, e diz: "Quem
sabe disto sou eu. Os jornalistas
têm de aprender comigo." E, depois,
vomita imbecilidades num esforço medíocre
de ser Goebbels, nem chegando ao tacão
do António Ferro, que
teve o background de vir da
Orpheu, escorregando, fruto dos tempos,
para o fascismo. Estes
de agora foram diretamente
para o fascismo, sem
passarem pela casa
Orpheu (ai, credo!, que
será isso?)
Vejamos quem são estes
figurões de que falo
- e o leitor trace a opinião
sobre o civismo,
carácter, ou o que lhe
aprouver deles. Miguel Poiares Maduro, ministro,
colega de sala de um
tal irrevogável Paulo
Portas, que preferiu trocar
a sua reputação pela
salvação da pátria, numa espécie
de martírio de Santa
Maria Goreti mas ao contrário,
no corpinho frágil de São
Domingos Sávio que se
finou aos quinze anitos. (Este mostra-se mais
resistente, sinal de que
o Senhor hesita em chamá-lo para
junto de si,
transferindo o ónus para a tolerante
e inexcedível bondade
de Cavaco Silva, sempre
bem aconselhado pela sua
nunca por demais
citada esposa, não
eleita pelo voto mas
calculo que pelo coração
de uma cabina telefónica cheia de portugueses, pelo
menos!) Paz às almas!
Miguel Poiares Maduro, igualmente
colega de carteira de
um tal Chancerelle
Machete que, de ainda
mais maduro, se
atascou na podridão, ipsis verbis, de uma coisa
que dá pelas siglas
de SLN e BPN e o qual, diz o WikiLeaks, tem uma reputação
tão elevada junto
dos americanos que, quando
eles quiserem fazer qualquer
negócio em Portugal, não
duvidarão em consultar certo
escritório de advogados
porque, como dizem os
ianques naquela língua-de-trapos, every man has
his price e... money is no problem. Gostaria patrioticamente de estar
enganado, mas, em diplomacia,
o que parece... é o que
diz o WikiLeaks. O outro: Pedro Lomba,
colega de Agostinho
Branquinho, a criatura que
não sabia o que era
a Ongoing e teve de ter emprego
na Ongoing para perceber o que
é a Ongoing. E ser colega de tal
figura é coisa para
se trazer ao peito, com
orgulho, como um
broche de bom latão.
Os dois, Poiares Lomba e Pedro
Maduro, são herdeiros
- com pouco jeito
- de Miguel Relvas, que,
com muito menos
estudos do que eles,
lhes deu lições de como
fazer política nestes tempos.
Pois os colegas de Portas,
Machete e Branquinho - e aprendizes de Relvas
- deram-se à missão de gerir a informação
ao povo, através dos jornalistas,
prometendo briefings diários
que duraram dois dias
e que retomaram agora,
com a honradez da palavra
que os caracteriza, em
encontros diários
duas vezes por semana,
não sei se o leitor
entende. (Como é aquela palavra
que tu utilizaste,
Miguel Sousa Tavares? Palha-de-aço? Não era
bem isto, mas
andava lá perto. No plural,
na circunstância.)
Aqui é que estes
grandes educadores
dos jornalistas aldrabaram. Começaram por
dizer - ponho no plural porque
tão aldrabão foi o secretário
de Estado que disse, como
o ministro que mandou
dizer ou, pelo menos,
não o desautorizou - que
os briefings com os jornalistas
seriam umas vezes em
on - isto é, podia dizer-se quem
disse o quê - outras vezes
em off (que
na sabedoria analfabeta
do secretário de Estado
e do ministro não sei
de quê nem interessa
se convertia numa figura nova
em que suas
excelências expenderiam umas quantas patacoadas
espremidas dos seus notáveis
bestuntos e os jornalistas
papagueá-las-iam, mas sem
dizer quem esvurmou tais
pústulas de sabedoria).
E disseram, ex cathedra, que era
assim que se fazia em
Inglaterra. Aldrabaram. (Vês, Pedro Tadeu, que
há uma palavra ainda mais
forte do que
"mentiram"? Quando a falta
à verdade é rasca e torpe, a palavra
é "aldrabice".) Os briefings em
Inglaterra são sempre
atribuídos ao PMS (Prime Minister Spokesperson), isto
é, ao porta-voz oficial
do primeiro-ministro, pessoa conhecida
e identificada - e as respostas são
sempre factuais, nada
de divagações onanistas de ministros
ou secretários de Estado
fala-barato armados em palestrantes.
E, com esta aldrabice, intrujaram: no segundo
dia de briefing,
levaram uma conceituada jornalista
da rádio a reproduzir todos
os vómitos e regurgitações opinativas do ministro
ou do secretário de Estado,
atribuindo-os sempre a "fonte
do Governo". Intrujaram a jornalista,
que, eventualmente, por
temor reverencial ou mau
conselho, se esqueceu dos seu
dever deontológico de não reproduzir
comentários sem identificar
a autoria. E intrujaram o público, fazendo passar
uma mensagem da maneira
que Don Basilio, em O
Barbeiro de Sevilha, explicava o que
era uma calúnia: È un
venticello,un"auretta assai gentile, che insensibile, sottile,
leggermente, dolcemente, incomincia a sussurrar.
(Estou para saber porque
é que fui gastar o meu
escasso italiano com tão
toscos governantes. Ainda
lhes inspiro uma ideia mais
fascizante...)
Mas não se fica por
aqui a impertinência
e a incivilidade destes dois cavalheiros:
mais recentemente, o ministro
Maduro esticou-se nas pontas
do pés, esganiçou--se e verberou jornalistas
sobre as perguntas que
deveriam ou não fazer!
Mas quem é ele?
E, pior do que isso,
porque é que não
houve nenhum jornalista presente
que dissesse a Sua Impertinência
que lhe cabe responder
ou não às perguntas
dos Senhores Jornalistas
(com maiúsculas, perante
tão vulgar e efémero ministro)
e não dizer-lhes o que
devem ou não perguntar?
Aviso solene aos jornalistas
do Diário de Notícias
- e estou seguro de ser levado
a sério: manda o nosso
Código Deontológico, no seu
ponto 3, que "o jornalista
deve lutar contra as restrições
no acesso às fontes
de informação e as tentativas
de limitar a liberdade de expressão
e o direito de informar. É obrigação
do jornalista divulgar as ofensas
a estes direitos."
Venham os Poiares Pedros ou os Lombas
Maduros que vierem, jornalista
do DN que se acobarde perante
este fascismo com
pés de lã, pode ter
a certeza, à fé de quem
sou, que fica com o nome
num pelourinho de cobardolas que
prometo expor aos leitores. Porque
é dos direitos dos leitores
que estamos a falar. Enquanto
estiver nesta casa e nela tiver voz,
o fascismo não entra
de esguelha.
Estamos a viver tempos
perigosos. Em Espanha, o alegado recebedor por
baixo da mesa Mariano
Rajoy proíbe que se fotografe, que
se grave, não sei mais
quê. Em Itália, é o que
sabe do império Berlusconi (ou
é Burlesconi?). Na Grécia, silencia-se a televisão
e mesmo com ordens
do tribunal não se
reabre.
O fascismo anda por
aí. É bem visível
no ovo da serpente.
Já não há a Europa
da liberdade: somos governados por
filhos de Putin.
Inúmeros filhos de Putin.
Cabazes de filhos de Putin.
Em Portugal, os devotos
de Putin, discípulos de Miguel Relvas,
condiscípulos de Agostinho Branquinho e
quejandos chamam-se, entre outros,
Miguel Poiares Maduro e Pedro Lomba,
lamentáveis expoentes
de um passado que
parecia inconformista e rebelde,
transformados num estalar de dedos
em esbirros da política
da mordaça, assim que
os convidaram a sentar-se num mocho cambaio
a metro e meio da mesa
do orçamento com direito
a côdea bolorenta.
É de calcular que os senhores
Miguel Poiares Maduro ou
Pedro Lomba digam em voz
alta, por escrito
ou simplesmente
resmoneiem entre dentes
que de mim não
recebem lições de civismo,
nem disto nem
daquilo.
Erram.
Recebem lições de mim,
como eu as recebo de toda
a gente, até deles se
forem capazes de produzir sabedoria
que me faça proveito.
Aliás, não recebo: tomo
eu próprio a iniciativa
de colher lições de toda
a gente, muitas de simplórios
que nem se dão conta
de que me estão a ensinar
e algumas que descubro úteis deixadas escapar
por académicos de capelo
e borla.
Insisto: de mim recebem lições.
De jornalismo, de civismo,
de muitas coisas. Podem não
as assimilar. Tanto pior
para eles. Mas
esta é uma maldição que me
acompanha: aparece-me sempre um
ou outro aluno
muito engelhado na compreensão.
Alguns já terão chegado
a catedráticos, sabe-se lá!
Mas posso estar a ser
injusto com Poiares Maduro
e Lomba: talvez eles
não estejam a resvalar
involuntariamente para o fascismo,
por uma qualquer insuficiência
cultural ou impreparação cívica.
Pode dar-se o caso de quererem mesmo
ser o que aparentam. E não
disponho de pastilhas de 25 de Abril
para os salvar.