sexta-feira, 6 de julho de 2018

O acidente e o genocídio



“12 rapazes, com idades entre os 11 e 16 anos e o treinador, presos em gruta na Tailândia dizem que estão bem de saúde.”

Tudo o que se possa fazer para salvar estes jovens, nunca será demais, que possamos ter conhecimento destes casos, ninguém o contesta. Mas ao mesmo tempo que estes rapazes estão a ser assistidos, em Gaza, Israel assassina crianças, e as imagens que podemos ver na internet são de tal modo horríveis que não as publico por pudor.
«Ofensiva israelense em Gaza deixa 408 crianças mortas, diz Unicef...»

Os bombardeios do exército de Israel em Gaza deixaram 408 crianças mortas e 2.500 feridas, segundo o Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef), que calcula em 370 mil o número de menores que necessitam urgentemente de ajuda.


Até que o problema na Tailândia se resolva, os media terão aí o seu maná de espéculação informativa, e os nazissionistas com a crueldade aprendida em Buchenwald e aperfeiçoada em Israel, continuam o seu trabalho de extermínio, sob o olhar conivente da dita comunidade internacional‘ e os carneiros de serviço na comunicação "social“.



quinta-feira, 5 de julho de 2018

quarta-feira, 4 de julho de 2018

VIVA O POVO MEXICANO


A América Latina é um imenso vulcão em permanente ebulição, confirmando a todo o instante o axioma tantas vezes esquecido
“tudo está em devir constante”.
E que Heráclito de Éfeso há cerca de 2500 anos nos alertou.

As chaves  da vitória e os desafios
Por Fernando Buen Abad Domínguez

«Ficou claro que uma vitória retumbante, como a de Lopez Obrador no México, é a conjugação de pelo menos, três fatores: uma vinculação permanente e irredutível com as frentes populares de luta; uma interpretação profunda e dinâmica da inquietação social e uma organização programática baseada em percorrer metro a metro o território nacional. Tudo isto, articulado por uma personalidade cuja tenacidade não conhece fadigas. “Às três é de vez” e assim foi.
A vitória de MORENA-Lopez Obrador é uma rebelião nas entranhas de uma estrutura democrática gravemente afetada pelo corporativismo bipartidarista (PRI-PAN) e por uma imensa lista de vícios e corruptelas que levaram à bancarrota institucional de todo o aparelho político. Uma rebelião assediada pela violência macabra desencadeada por uma falsa guerra contra o “crime organizado” que na prática não foi mais que a militarização “encoberta” de todo o território para colocar a riqueza nacional ao serviço das corporações transnacionais e seus cúmplices locais. Uma rebelião que teve que superar milhares de armadilhas e emboscadas em todos os odiosos repertórios de empobrecimento económico e de guerras psicológica e mediática.
O México sofre a violência do neoliberalismo e os embates coloniais do império ianque. É um país sequestrado por gerentes – impostos de modo fraudulento – para fornecer recursos naturais e doar mão-de-obra.
No México, até hoje, ninguém pôde garantir ao povo a defesa do território e a defesa dos recursos naturais. Ninguém foi capaz de garantir o exercício independente da justiça. Ninguém conseguiu deter o crime organizado e suas metástases em todas as estruturas sociais e culturais do país. Ninguém conseguiu exercer qualquer liderança em questões de democracia comunicacional. Ninguém foi capaz de garantir o direito à educação, o direito ao trabalho, o direito à saúde, o direito à alimentação… Ninguém foi capaz de assegurar a dignidade às pessoas, porque a moral entreguista e rasteira, adoradora do império ianque, serve de modos ignominioso a opressão. Neste contexto, López Obrador vence as eleições.
As dificuldades começam agora. López Obrador propõe-se pacificar o país; terminar com a corrupção e recompor a economia com a dignificação laboral e salarial. Conseguir a inclusão dos mais desprotegidos e distribuir equitativamente o orçamento federal. E isso implica derrotar as máfias que sequestraram o Governo e o Estado para fazer justiça, por exemplo, aos estudantes de Ayotzinapa, aos povos indígenas e garantir sustentabilidade do trabalho para ampliar a participação social no governo mobilizado como organizador capaz de congregar forças que possam oferecer soluções à energia popular que triunfou.
Os desafios são muitos e enormes num país que rasgou profundamente o tecido social, mas que, apesar dos contratempos, se rebelou contra o establishment para tornar visível o seu multiculturalismo e plurinacionalidade junto com as “classes médias”, conseguindo a maior votação que presidente algum havia alcançado no México, nem mesmo qualquer outro líder de esquerda.
O México enfrenta o seu futuro imediato mobilizado como nunca, com as praças cheias, as ruas repletas, com uma mobilização magnífica que gere ideias emancipadoras. Contra a fraude, contra o saque e contra a histórica exploração… é uma identidade nova, uma festa que surge da base, uma situação social inédita. Pode bem ser o nascimento de um novo México, desta vez decidido pelo povo, com as armas da sua democracia em reparação, com uma moral renovada, e muita limpidez nos desafios de modo a se preparar para derrotar qualquer intento de regressão. Neste momento, o México está num momento de inflexão, um desafio às nossas capacidades de luta e unidade dentro e fora do país… ponto de inflexão para que nos reconhecermos na tomada do poder impulsionados com as nossas próprias forças populares, com os trabalhadores do campo e das cidades… para mudar o sistema e mudar a vida.»


terça-feira, 3 de julho de 2018

O relato da bola


(Um divertido contributo para a história das telecomunicações)



O relato da bola

Ao contar esta estória por mim vivida, apercebi-me que não estava a ser convincente para os que me escutavam. Os meus interlocutores continuavam a ouvir com algum interesse mais pelo incomum do conteúdo do que pela credulidade que lhe atribuíam.

Quando afirmei que o relato de um jogo de futebol enviado de Lisboa via radiotelegráfica, era radiodifundido uma ou duas horas depois no “Rádio Clube de Cabo Verde” Cidade da Praia como se de um jogo em directo se tratasse, os que me ouviam esboçaram um sorriso de complacência.

Para quem não viveu no reino encantado das telecomunicações em que imperava o maravilhoso telégrafo morse, que tão bons serviços prestou e admirado foi, difícil é fazer-lhes crer como se veiculava o serviço informativo na década de quarenta do século passado, onde situamos esta quase aventura.

À velocidade ronceira de vinte palavras por minuto, média de cem caracteres, todos os domingos o prato forte do noticiário da “Presse Lusitânia” era preenchido com o relato de um desafio de futebol.

A primeira etapa desta saga tinha início na “Agência Lusitânia” junto ao Chiado, serviço mais de propaganda do que de informação, destinado a promover e glorificar o regime fascista.

O “jornalista” encarregue da árdua tarefa de passar ao papel um relato de futebol transmitido pela rádio, atendia o telefone, conversava com quem quer que aparecesse ou dava uma saltada à Brasileira quase em frente. Os boletineiros da Marconi iam colhendo as páginas dactilografadas que entregavam na central telegráfica na Rua de São Julião onde o texto depois de passado a morse em fita perfurada, era transmitido à velocidade não superior a cem caracteres por minuto para que mais facilmente pudesse ser recebido tendo em conta as interferências atmosféricas e outras ou à inaptidão de muitos radiotelegrafistas nas colónias e na navegação.

E neste exercício de paciência, as duas partes do desafio escorriam arrastadas ultrapassando os noventa minutos de jogo como se um longo prolongamento houvesse.

Em Cabo Verde, na Estação da Marconi situada na Achada de Santo António, distante do Rádio Clube localizado junto à Estação dos Correios na Cidade da Praia, os sinais de morse em pachorrenta cadência voltavam novamente ao papel dactilografado que o Antoninho, estafeta de lentidão reconhecida, num vai e vem, entregava ao locutor de serviço no Rádio Clube.

Acontece que relatar três ou quatro páginas de folhas A4 mesmo se lidas lentamente não corresponderia à distância de quinhentos metros percorridos pelo Antoninho mesmo que não encontrasse um amigo ou conhecido que à boa maneira de qualquer cabo-verdiano teria de se inteirar de como se encontrava toda a família, animais e culturas e só depois reiniciar a descida até ao Cais e a subida para a Achada de Santo António e, chegado à Marconi pegar nas páginas entretanto recebidas pelo radiotelegrafista e retornar ao Rádio Clube.

Como não era possível interromper a transmissão de Lisboa, a receção estava sujeita a interrupções de vária ordem tais como interferências, falta de energia eléctrica ou mesmo fading geral em ondas curtas. Nada disto impedia que o locutor enquanto aguardava o estafeta continuasse imperturbável e com crescente emoção a relatar o desafio, como se estivesse em direto criando avançadas de destreza, situações empolgantes, remates à trave, agressões e outras faltas que tanta celeuma provocava entre os ouvintes.

Ah!... Mas quando numa das páginas aparecia um golo, o tão ambicionado golo, o locutor ajeitava melhor o microfone, afinava a garganta, construía o ataque imparável e lançava o grito esperado: goooolo! E repetia gooolo, gooolo! Creio mesmo que o fazedor do espetáculo se deixava envolver pelo entusiasmo por si criado acabando por se emocionar.

O relato só terminava quando recebida a última página, para se certificarem do resultado final, não fosse ter escapado algum golo na travessia do Atlântico. Mas, mesmo se algum golo se tivesse extraviado nada estava perdido o locutor afinava mais uma jogada de perigo e no último minuto acertava o resultado.

Assim se confunde a ficção e o real. O espectador do jogo em Lisboa talvez vibrasse menos que o ouvinte que seguia com atenção o mesmo jogo fabricado pelo locutor, com a vantagem de os ouvintes do jogo de ficção usufruírem de mais tempo de entretenimento.

E porquê tanto espanto se nos lembrarmos das rádionovelas de então ou das telenovelas de hoje que magnetizam multidões?

Acompanhei todas as fases deste cândido embuste quer na “Lusitânia” e na Marconi na Rua de São Julião em Lisboa quer na Marconi na Achada de Santo António e, no próprio Rádio Clube da Praia em Cabo Verde.

A “Presse Lusitânia” fascista, com outros títulos e meios, continua a alienar ouvintes, leitores e espectadores diluindo-lhes a realidade numa aguadilha paradisíaca.
 

 (De pé a contar da esquerda o radiotelegrafista Ernesto Vitória, radiotécnico e gerente Manuel Tomaz Dias, o radiotelegrafista José Ferreira e o mecânico Avelino,
em baixo também a contar da esquerda o radiotelegrafista Vitor Carreiro, o praticante radiotelegrafista Cid Simões e o radiotelegrafista Tavares de Almeida.

(Manuel Tomaz Dias construiu o emissor do Rádio Clube, a locução estava a cargo de Vitor Carreiro, Ernesto Vitória e José Ferreira e eu, adolescente encantado com os mistérios da rádio, fazia de “assistente”).





domingo, 1 de julho de 2018

Um homem de coragem


A coragem é a bitola com que se afere a dimensão do Homem e a heroicidade é sua resultante. Razão mais que suficiente para enaltecer os que pondo em risco a própria sobrevivência impõem as suas ideias e seus ideais, enfrentando tudo e todos.

Vem isto a propósito do programa “governo sombra” emitido pela TVI e ilustrado com três protagonistas, um entertainer humorista apresentado como sendo de esquerda, outro com as nalgas políticas assentes entre duas cadeiras e o terceiro que estoicamente se assume de direita. Este último é o meu herói.
Chama-se Tavares, (Tavares Rico?) e frente às câmaras, desafiando os patrões e o sistema em vigor, com a verticalidade dos Cabrais, declarou-se adepto do capitalismo. Fiquei varado, não queria acreditar que alguém com filhos a sustentar, se pudesse afirmar perante a União Europeia, a senhora Merkel, a Santa Casa da Misericórdia, Centeno e outros mais, que era adepto do capitalismo, il faut le faire!… Diria Emmanuel Macron.

Não se afirmou como neoliberal, vai ser despedido. O que será daquela família, pobres crianças. O senhor Tavares já mudou de visual, rapou o cabelo e a barba, provavelmente vai passar à clandestinidade.

Se não aparecer no programa de sexta-feira vou convocar uma manifestação frente à estação em Queluz de Baixo.

Estejam atentos… a todos os Tavares dos media, e são muitos.