segunda-feira, 20 de julho de 2009

Cuidado com eles

25 intelectuais da nossa praça após muito cogitar lançaram um http://static.publico.clix.pt/docs/politica/manifesto.pdf manifesto a propósito do “nosso presente e o nosso futuro”.

O que seria de nós sem estes cérebros de excepção?

«…saiba que cada palavra, acção ou inacção, têm consequências no mundo contemporâneo que a todos pertence. Por conseguinte, cabe a cada um de nós torná-lo melhor; se o não fizermos, tornar-nos-emos responsáveis por um eventual colapso mundial.»

Tal e qual, somos todos responsabilizados pelo “colapso mundial”. Nem mais nem menos.

30 páginas a transbordarem de vacuidades, decalques, sopas requentadas ou já azedas.

E mais não digo. Leiam se vos chegar a paciência.

NÃO SE DEVE…

Não se deve deixar os intelectuais brincar com os fósforos

Porque, meus senhores, quando o deixam sozinho

O mundo mental meus senhores

Não é nada brilhante

E mal se apanha sozinho

Age arbitrariamente

Erigindo a si próprio

Alegada e generosamente em honra dos trabalhadores da

construção civil

Um auto-monumento

Não é demais insistir, meus senhores

Quando o deixam sozinho

O mundo mental

Mente

Monumentalmente.

(tradução de Manuela Torres)

IL NE FAUT PAS…

il ne faut pas laisser les intellectuels jouer avec les allumettes

Parce que Messieurs quand on le laisse seul

Le monde mental Messssieurs

N’est pas du tout brillant

Et sitôt qu’il est seul

Travaille arbitrairement

S’érigeant pour soi-même

Et soi-disant généreusement en l’honneur des travailleurs du

bâtiment

Un auto-monument

Répétons-le Messssssieurs

Quand on le laisse seul

Le monde mental

Ment

Monumentalement.

4/1/1900 – 11/4/1977

Jaques Prévert

(Paroles – 1949)

sábado, 18 de julho de 2009

112



Para os que advogam que a nossa crise vem do exterior, relembro esta crónica de há 4 anos, Setembro de 2005.


111

Este fulgor baço da terra

Que é Portugal a entristecer –

……………………………

Ninguém sabe que coisa quer.

Ninguém conhece que alma tem,

Nem o que é mal nem o que é bem.

Fernando Pessoa - Mensagem

Num estudo divulgado pelo Semanário Económico, «a manter-se o ritmo das últimas três décadas, 111 anos é o tempo que o País demorará para atingir a média do produto interno bruto (PIB) da UE.»

Se me permitem acrescentaria só mais um ano – com mil diabos, mais ano menos ano, que mal daí virá? Com este pequeno acrescento, ficaríamos com um logótipo emblemático facilmente reconhecível e condizente com a nossa situação passada, actual e futura; o 112 é o número de todas aflições, desastres ou catástrofes de qualquer natureza, cheira a clorofórmio, soa a tragédia e faz-nos lembrar o relampejar do ni-nó-ni.

Se, de facto, não estamos a viver um cataclismo, que alguém me saiba adjectivar a actual situação que nos traz à memória o passado recente em que por várias vezes nos afirmaram ser Portugal um “oásis”, de tal modo idílico que nunca demos por ele. Que rolávamos no “pelotão da frente” sempre a pedalar nas bicicletas fixas dos ginásios, que frustração! Da lanterna vermelha, perdão, laranja e rosa pouco se tem falado. Talvez um problema de daltonismo intelectual ou deslembrança!

Perdemo-nos no deserto de tantas desgovernanças, e do oásis nem a miragem; quanto ao “pelotão da frente”, levámos todo este tempo a encher pneus, e já nos falta o ar. Ofegantes, vamos cavando os alicerces desta nossa vil tristeza: Subsídios para manter as terras em pousio e abater a nossa frota pesqueira investindo na compra de submarinos para melhor mergulhar a nossa indigência e alguma vergonha, se alguma ainda nos resta.

O nosso grande esforço no investimento produtivo para conseguirmos chegar à média do PIB europeu, encontramo-lo no envio de militares porta-estandartes do imperialismo Ianque nas suas criminosas agressões, despendendo assim milhões e milhões de euros e acelerando deste modo a nossa lesta caminhada que nos levará, dentro de cento e onze anos à média do produto interno bruto da UE.

Temos vendido a preços de saldo a maquinaria da nossa indústria têxtil, à medida que vão encerrando as fábricas, a indianos e chineses, depois de termos alienado ao desbarato toda as máquinas da Siderurgia Nacional.

Sabendo que sem a qualificação dos nossos jovens seremos sempre o que somos, e porque entre os 29 países da OCDE os nossos alunos ocupam o 26º lugar em literacia da leitura, a 27ª posição no domínio da matemática e a 28ª em ciências, para colmatar esta tremenda deficiência e atingirmos a média europeia do PIB, a classe docente é menosprezada e desmotivando-a dificultam o regular exercício das suas funções.

Serenamente, a serenidade e a auto-estima são os cajados aconselhados pelos governantes, aguardemos o ano de 2116 para comermos pipocas, hambúrgueres e muitas mais mixórdias que a globalização distribuirá pelos países pobrezinhos.

Eu fico cá para ver!

quarta-feira, 15 de julho de 2009

O bOm pOOOvO


uma das imagens mais comoventes
de
Sebastião Salgado



Eles gostam tanto do pooovo!... sentem-se tão chegadinhos ao pooovo!... preocupam-se tanto com o bom pooovo!... São uma ternura, principalmente antes das eleições. Mesmo entre eles, nestas ocasiões, deixam de o apelidar de ralé, populacho, gentalha e outros acepipes, embora continuem a sentir vertigens só de pensar no… “Povo Unido”.

Normalmente quando se referem ao povo engasgam-se, espirram… não conseguem evitar a alergia nervosa que tais vocábulos lhes causam. Há, no entanto, que fazer um esforço, sorrir-lhes, apertar-lhes a mão, dar-lhes beijinhos e palmadinhas nas costas e, sempre com a máscara que sorri, deixar no ar uma qualquer benesse para depois do escrutínio. Pode valer o sacrifício!

São os amantes de vão de escada que se servem do povo, prometendo-lhe mesada e casa posta, mas uma vez servidos voltam para o doce lar. E quando, por acaso, se cruzam numa qualquer esquina da vida com o povo que juraram amar, viram-lhe a cara fingindo não o conhecer.

E porque têm um ar lavado assessorados que são por especialistas de imagem, terapeutas da fala, escribas de qualidade para lhes redigir os discursos, o produto aparenta boa qualidade exterior. Dão espectáculos em espaços amplos enquadrados pela bandeira nacional, a das estrelinhas amarelas, colocando em evidência a bandeirinha da agremiação a que pertencem. E os basbaques caem na esparrela.


Se o potencial cliente são os trabalhadores, para publicitarem a mercadoria que pretendem vender apresentam-se em mangas de camisa, como quem vai à feira.

Tomarão outra postura nas reuniões com os banqueiros de quem dependem e servem; impõe-se encadernação adequada ao cenário, fato à medida nos melhores alfaiates.

Postura de estado se a ocasião assim o exige, porte austero, bem aprumados e circunspectos, fazem-nos rir.

E o povoléu que até gosta de assistir a estas metamorfoses lá lhes vai ouvindo as parlapatices envoltas em música celestial onde, à porfia, cada um promete mais que o outro; e fazem-no com uma candura e encenação tão perfeitas que, mesmo apercebendo-se que é conversa para boi dormir, o povo lá tem ido pôr a cruzinha, jurando sempre ser a última vez.

É evidente que, nestas ocasiões, se faz crer que são profundas as preocupações com os mais carenciados, o termo é ambíguo: carenciado tanto pode ser alguém necessitado de pão como de afecto.

Mas o melhor é levar-lhes pão:

- “Ó Gertrudes! não te esqueças de entregar pessoalmente o cabaz com artigos de mercearia à mulher do Manel.”

- “Aprende a falar em período eleitoral: à esposa do senhor Manuel, está bem!”

- “Sim, aquele que foi despedido a semana passada; leva essa comidinha e que não se esqueçam de ir botar o papelinho com a cruzinha no lugar do costume.”

E eles lá têm ido carregando a cruz do costume e sofrendo a vidinha de sempre.

É a vida!

domingo, 12 de julho de 2009

A Pandemia


E se a fome fosse viral?


Convivemos com este vírus social com a maior das à-vontades

os jornais de quando em vez publicam estatísticas e nas épocas festivas os "bancos contra a fome" mostram-nos os bons corações a escorrer caridade. As vacinas encontram-se nos cofres-fortes dos bancos e as leis sonegam-nas aos esfomeados.

Sempre assim foi. Dizem.
E dormem sem pesadelos.







sábado, 11 de julho de 2009

O Sonho


as palavras são armas e o sonho também

O Sonho

Pelo Sonho é que vamos,

comovidos e mudos.

Chegamos? Não chegamos?

Haja ou não haja frutos,

pelo sonho é que vamos.

Basta a fé no que temos,

basta a esperança naquilo

que talvez não teremos.

Basta que a alma demos,

com a mesma alegria,

ao que desconhecemos

e ao que é o dia-a-dia.

Chegamos? Não chegamos?

- Partimos, Vamos. Somos.

Sebastião da Gama

in Pelo sonho é que vamos