quinta-feira, 28 de julho de 2016

Os cães de fila continuam a rosnar

Mantêm o pão sob controlo e a liberdade à distância. Na matilha enquanto uns ladram outros rosnam e o recente uivar ainda nos faz vibrar os tímpanos. Amestrados na Goldman Sachs controlam todas as saídas, e, se alguém faz menção de avançar, de mandíbulas abertas impõem a distância recomendada.

No espaço delimitado pela matilha só os lobos vivem em liberdade.

"Não se pode considerar, de forma alguma, uma vitória a inexistência de uma expressão financeira desta sanção porque, na prática, o que confirma é uma decisão de punição sobre o país e condicionamento da soberania que não podemos aceitar.” (João Oliveira)


quarta-feira, 27 de julho de 2016

Os racistas

AGOSTO

A ciência revelou-nos o que já era óbvio:
Os Humanos não são divisíveis por raças.
Há no entanto uns menos humanos que outros:
Os racistas.

Agosto. Lisboa é uma cidade sonolenta, aconchegada na modorra que o calor transporta. As ruas estreitas são canais de frescura, veias onde circulam os que lhe mantêm a tonicidade indispensável ao ritmo estival.
Hora de almoço. Restaurantes e tascos de portas amordaçadas. No interior as cadeiras em exercícios de equilíbrio fazem o pino sobre as mesas, cenários de abandono cumprindo o calendário.
Aproveito as sombras somíticas que o sol do meio-dia nos permite. A cidade repousa, respira tranquilidade. O movimento é escasso. Sem pressas e muita curiosidade reparo na toponímia: “Conde Barão”. Sorrio. Conde e Barão... Que exagero! “Poço dos Negros”... Para quando a “Fonte dos Negros”? Pensei, matreiro, satisfeito pela ideia prenhe de malícia.
O olfato guia-me não sei bem para onde; misturado com o podre das sarjetas chega um odor a peixe grelhado, sigo o filão, o cheiro encorpa, a curiosidade e a imaginação fundem-se em apetite, a mensagem vai-se tornando clara, começo a aperceber-me do tipo de pescado que me espera, mais uma ruela, ainda outra... e um recanto de cenário tipicamente alfacinha surge sem surpresa. No braseiro, à entrada da tasca, carapaus e sardinhas mostram-se fumegantes oferecendo-se a quem passa.
Cortadas a meio pelo sol que faz fronteira com a sombra que o afasta, quatro pequenas mesas alinhadas com o assador confundem-se com a parede.
O lugar é tranquilo, a frescura do peixe faz alarde. Aproveito a meia sombra de uma das mesas. Sento-me.
A higiénica e proletária toalha e guardanapo de papel não demoram, o simpático galheteiro não se faz esperar. E neste vai e vem do empregado, pronuncio: Carapaus.
Sóbrio e preciso, o breve monólogo ajustava-se à simplicidade do estabelecimento, além do mais não me apetecia falar, predisposto que estava a usufruir da oportunidade que a cidade me oferecia neste singular dia de Agosto.
Numa das restantes mesas três operários comiam mansamente. Junto deles uma mulher falava, falava, falava. Mansamente os homens continuavam a comer esboçando um sorriso de vez enquando.
Não longe de mim, os carapaus rechinavam na grelha deixando cair gotas de gordura como que dizendo: vais gostar!
Entretanto a mulher continuava a pregar. Entretido que estava com o meu peixe e de apetite em crescendo, desejoso de um repasto calmo, só dava pelo som agudo da sua voz que me começava a enfadar.
Falava dos pretos. Olhei-a, tinha os olhos em mim, e quando se apercebeu que nela reparei subiu o tom de voz, ganindo: pretos. E sorrio-me. Os operários enlevados chupavam as cabeças dos peixes que sublinhavam com um gole de tinto. Gente que sabe misturar sabores.
O sol teimava em não me libertar a mesa, os carapaus faziam-me negaças e não se despachavam, e a mulher, porque os três homens não lhe davam troco, virava para mim o discurso racista: os pretos, os pretos, os pretos.
Os meus olhos azuis num rosto branco, agora certamente lívido, tomaram-na por alvo.
“Também sou racista!” disse. A mulher devolveu-me de imediato um jubiloso sorriso de reconhecimento. E não lhe dando tempo de maior euforia, continuei firme, seco: “Não posso com os brancos!”.
Toda a expressão de alegria transfigurou-se numa metamorfose súbita, dando lugar a um semblante amorfo onde o espanto e a perplexidade se confundiam. Fixava-me e não entendia, havia algo que a ultrapassava, não estava ouvindo bem ou não enxergava de feição.
E para que não lhe restassem dúvidas, repeti de modo compassado e agressivo: “Não posso com os brancos, ouviu bem!? E sabe porquê? Porque são os únicos que me têm lixado a vida.”
A catarse resultou, acalmei. Os carapaus impecavelmente grelhados apresentaram-se-me alinhados, enfeitados com um raminho de salsa. Era carapau do branco, branquinho como eu. Não gosto do carapau negrão, prefiro o chicharro. 
Já bem-humorado ia degustando deliciado esta refeição tão nossa, e repetia para comigo: Só os brancos me têm lixado, é certo, porque todos os outros não têm tido essa oportunidade.
Quando dei uma espreitadela para o lado, os homens já bebiam o café e a mulher eclipsara-se.
O vírus do racismo é assim, sempre presente, mantêm-se latente em todos os locais, intervêm se nos apanha desprevenidos, e prolifera rapidamente se lho permitem, atingindo por vezes o grau epidémico.

terça-feira, 26 de julho de 2016

Frases memoráveis


«Eu gosto muito de andar de tartaruga.»
Mário Soares*

A profundidade da afirmação, após uma visita de Estado à República das Seychelles no Oceano Índico, território com 455 km2, o equivalente à nossa ilha do Pico 447 km2, deixou-nos absortos.
Andar de tartaruga!...

Consultámos pensadores, gente de várias áreas do conhecimento para nos ajudarem a extrair desta frase o seu escondido conteúdo.

Filósofos, cavaleiros, psicanalistas e psiquiatras, camionistas e alguns doutorados em política sem esquecer fazedores de opinião e outros charlatães.

A frase é de tamanha profundidade e complexa que acabou por bloquear todo o entendimento.

As tartarugas são difíceis de entender.

*«Mário Soares destaca o potencial turístico e piscatório das ilhas, bem como as possibilidades de estabelecimento de relações bilaterais de cooperação económica.» in Fundação Mário Soares


domingo, 24 de julho de 2016

UMA QUESTÃO PERTINENTE



Se, segundo alguns, vivemos em democracia, proponho que durante a semana procurem um órgão de comunicação social de esquerda ou sem ideologia como tantos gostam de se afirmar.
Um canal de televisão ou rádio onde não se perfile só gente de direita ou que com ela se confunda, como fazedores de opinião.
Procure onde estão os media ditos de referência onde os sindicatos tenham lugar cativo, e procure saber também quem são os donos e senhores de toda a comunicação associal?

Algumas questões e uma só resposta:

Sofremos a ditadura dos media.


quarta-feira, 20 de julho de 2016

Primatas e primárias



Espetáculo deprimente protagonizado por gente primária, nestas primárias dos primatas.

A plutocracia na sua mais aberrante expressão.

E o mundo ficará refém de uma destas sinistras figuras.

Um pesadelo.

terça-feira, 19 de julho de 2016

ALMOÇO DE TRABALHO



Escolheu um local abrigado, com dois tijolos e uma tábua fez um banco, abriu a marmita e ligou o pequeno transístor precisamente no momento em que referiam a chegada de François Hollande a Belém para um almoço de trabalho com Marcelo Rebelo de Sousa.

O que será um almoço de trabalho? Ficou pensativo, emocionado às lágrimas e perdeu o apetite.

segunda-feira, 18 de julho de 2016

UMA PERGUNTA IMPERTINENTE:

«We are the world».
Qual a possível relação entre o abortado golpe de estado na Turquia e a Cimeira dos chefes de Estado e de governos da NATO que teve lugar nos dias 7 e 8 de julho em Varsóvia?

“Deveria ter sido o triunfo dos Estados-Unidos sobre o resto do mundo, mas na realidade foi o princípio da queda”.

“Nós somos o mundo”

Quando da reunião a 13 de maio de 2015 em Istambul, os dirigentes da NATO terminaram uma refeição bem regada, rindo-se dos cretinos que acreditam nos seus discursos de paz, cantando: «We are the world».
Reconhecem-se neste indecente vídeo o general Philip Breedlove, Jens Stoltenberg, Federica Mogherini e numerosos ministros da Defesa. (vídeo Reuters)