sábado, 22 de fevereiro de 2020

Há 172 anos


21 de fevereiro de 1848


«Um espectro ronda a Europa - o espectro do comunismo. Todas as potências da velha Europa unem-se numa Santa Aliança para conjurá-lo: o papa e o czar, Metternich e Guizot, os radicais da França e os policiais da Alemanha.»

Hoje o mesmo espectro ronda todo o Mundo
 

PROLETARIADO: "A sua luta contra a burguesia começa com sua própria existência".

"A História de todas as sociedades até os nossos dias não foi senão a história pelas lutas de classes.",





VIVER DIGNAMENTE


sexta-feira, 21 de fevereiro de 2020

CRYPTO-FASCISMO

(Entre as polícias políticas da América Latina, a coordenação da repressão passava pelas máquinas da Crypto AG, rebatizadas de «Condortel» 

Editorial LE COURRIER
VENDREDI 21 FÉVRIER 2020

BENITO PEREZ

CRYPTO-FASCISMO

O caso Crypto AG, nome da empresa que operou durante meio-século a partir de Zoug em proveito da CIA, só surpreende pela escala e duração. Que a Suíça e a sua neutralidade de fachada estivessem subordinadas aos interesses do Estado americano, constata-se pelo menos depois da Guerra Fria. Reveladas no final do século passado, as organizações helvéticas secretas P26 e P27 permitiram também, que o exército e o establishment político - o mesmo que deu cobertura à Crypto – de colaborar com a OTAN com a maior hipocrisia. Uma aliança transatlântica que não diminuiu desde então.

Se de forma alguma nos surpreende, o caso Crypto (ou Rubicon, de acordo com seu último nome de código), no entanto, destaca uma certa conceção suíça de neutralidade. Os documentos extraídos dos arquivos da NSA, desenterrados há alguns dias pelo Washington Post, mostram também que as ferramentas de criptografia vendidas pela empresa Zugoise foram usadas em particular para rastrear os opositores das ditaduras da América do Sul em 1973, particularmente através do famoso 'Plano Condor'. Entre as polícias políticas (Argentina, Brasil, Bolívia, Chile, Paraguai e Uruguai), a coordenação das operações de vigilância e repressão transitavam pelas máquinas CX-52s e depois pelas máquinas H-4605 da Crypto AG, rebatizadas de 'Condortel'... A caça orquestrada com o apoio dos Estados Unidos custou a vida a várias dezenas de milhares de militantes de esquerda. Sabemos agora que Washington podia acompanhar cada sequestro, tortura e desaparecimentos em direto graças aos produtos made in Switzerland. 

Um cenário sem dúvida idêntico ao do genocídio dos comunistas da Indonésia, outro país cliente da Crypto AG.

Para Berna, a qual o Post assegura que foi informada das atividades da CIA, a operação Rubicon tinha apenas vantagens: além da publicidade em termos da excelência tecnológica, a Confederação manteve uma neutralidade de fachada, mas favoreceu concretamente os regimes  conformes aos interesses económicos das suas elites. Tudo sem sujar as mãos. Enfim... a história os julgará.

quarta-feira, 19 de fevereiro de 2020

Por que de racismo se fala



Crónica lida na ‘Rádio Baia’


Por que de racismo se fala

 
A ciência revelou-nos o óbvio:
Os Humanos não são divisíveis por raças. Há no entanto uns menos humanos que outros: Os racistas.

Agosto. Lisboa é uma cidade sonolenta, aconchegada na modorra que o calor transporta. As ruas estreitas são canais de frescura, veias onde circulam os que lhe mantêm a tonicidade indispensável ao ritmo estival.
Hora de almoço. Restaurantes e tascos de portas amordaçadas. No interior as cadeiras em exercícios de equilíbrio fazem o pino sobre as mesas, cenários de abandono cumprindo o calendário.

Aproveito as sombras somíticas que o sol do meio-dia nos permite. A cidade repousa, respira tranquilidade. O movimento é escasso. Sem pressas e muita curiosidade reparo na toponímia: “Conde Barão”. Sorrio. Conde e Barão... Que exagero! “Poço dos Negros”... Para quando a “Fonte dos Negros”? Pensei, matreiro, satisfeito pela ideia prenhe de malícia.

O olfato guia-me, não sei bem para onde; misturado com o podre das sarjetas chega um odor a peixe grelhado, sigo o filão, o cheiro encorpa, a curiosidade e a imaginação fundem-se em apetite, a mensagem vai-se tornando clara, começo a aperceber-me do tipo de pescado que me espera, mais uma ruela, ainda outra... E um recanto de cenário tipicamente alfacinha surge sem surpresa. No braseiro, à entrada da tasca, carapaus e sardinhas mostram-se fumegantes oferecendo-se a quem passa.

Cortadas a meio pelo sol que faz fronteira com a sombra que o afasta, quatro pequenas mesas alinhadas com o assador confundem-se com a parede.
O lugar é tranquilo, a frescura do peixe faz alarde. Aproveito a meia sombra de uma das mesas. Sento-me.

A higiénica e proletária toalha e guardanapo de papel não demoram, o simpático galheteiro não se faz esperar. E neste vai e vem do empregado, pronuncio: Carapaus.

Sóbrio e preciso, o breve monólogo ajustava-se à simplicidade do estabelecimento, além do mais não me apetecia falar, predisposto que estava a usufruir da oportunidade que a cidade me oferecia neste singular dia de Agosto.
Numa das restantes mesas três operários comiam mansamente. Junto deles uma mulher falava, falava, falava. Mansamente os homens continuavam a comer esboçando um sorriso de vez em quando.

Não longe de mim, os carapaus rechinavam na grelha deixando cair gotas de gordura como que dizendo: vais gostar!

Entretanto a mulher continuava a pregar. Entretido que estava com o meu peixe e de apetite em crescendo, desejoso de um repasto calmo, só dava pelo som agudo da sua voz que me começava a enfadar.

Falava dos pretos. Olhei-a, tinha os olhos em mim, e quando se apercebeu que nela reparei subiu o tom de voz, ganindo: pretos. E sorrio-me. Os operários enlevados chupavam as cabeças dos peixes que sublinhavam com um gole de tinto. Gente que sabe misturar sabores.

O sol teimava em não me libertar a mesa, os carapaus faziam-me negaças e não se despachavam, e a mulher, porque os três homens não lhe davam troco, virava para mim o discurso racista: os pretos, os pretos, os pretos.
Os meus olhos azuis num rosto branco, agora certamente lívido, tomaram-na por alvo.

“Também sou racista!”, Disse. A mulher devolveu-me de imediato um jubiloso sorriso de reconhecimento. E não lhe dando tempo de maior euforia, continuei firme, seco: “Não posso com os brancos!”.

Toda a expressão de alegria transfigurou-se numa metamorfose súbita, dando lugar a um semblante amorfo onde o espanto e a perplexidade se confundiam. Fixava-me e não entendia, havia algo que a ultrapassava, não estava ouvindo bem ou não enxergava de feição.

E para que não lhe restassem dúvidas, repeti de modo compassado e agressivo: “Não posso com os brancos, ouviu bem!? E sabe porquê? Porque são os únicos que me têm lixado a vida.”

A catarse resultou, acalmei. Os carapaus impecavelmente grelhados apresentaram-se-me alinhados, enfeitados com um raminho de salsa. Era carapau do branco, branquinho como eu. Não gosto do carapau negrão, prefiro o chicharro. 

Já bem-humorado ia degustando deliciado esta refeição tão nossa, e repetia para comigo: Só os brancos me têm lixado, é certo, porque todos os outros não têm tido essa oportunidade.

Quando dei uma espreitadela para o lado, os homens já bebiam o café e a mulher eclipsara-se.

O vírus do racismo, mantém-se latente em todas as mentes, intervém se nos apanha desprevenidos, e prolifera rapidamente se lho permitimos, atingindo por vezes graus preocupantes.