Por António Santos
Daniel
Hale é um herói americano e num computador do Pentágono
há uma lista de pessoas a assassinar. Na Matriz de Disposição —
foi assim baptizado o rol — constam os nomes de dezenas de milhares de pessoas,
de todas as nacionalidades e em países de todo o mundo, pelo que não é totalmente
impossível que também o teu nome conste, uma vez que não há critérios conhecidos
para decidir quem vive e quem morre.
Daniel Hale, analista da Força Aérea dos EUA, revelou
aos jornalistas do Intercept esta e outras informações que
aqui descreverei, para que o mundo soubesse. É que se a hipótese de ser assassinado
por um drone te parecer rebuscada, não ficarás mais tranquilizada/o
se souberes que parte dos nomes na lista são gerados automaticamente por
um algoritmo a partir de meta-dados recolhidos na Internet e que o programa
de assassinatos com drones é global.
Daniel Hale achou que isto era criminoso e que não
podia, à semelhança dos nazis em Nuremberga, simplesmente cumprir ordens
para que ninguém saiba. Porque mesmo que se apenas por erro fosses parar à
lista de condenados à morte pelo governo dos EUA, não existiria nenhum tribunal
a que pudesses apelar ou recorrer da sentença, não terias direito a advogados
nem te seria concedido o direito a tentar provar a tua inocência no banco
dos réus.
Daniel Hale podia ter cumprido as suas ordens, mas
arriscou 50 anos de prisão por espionagem para que tu saibas. Repara, segundo
o governo paquistanês, 80 por cento das vítimas de ataques por drones naquele
país são, tal como tu certamente serias se improvavelmente o teu nome
fosse misteriosamente gerado pelo algoritmo, inocentes assassinados
por engano.
Uma arma
de terror em massa
Daniel Hale foi preso em Maio de 2019 e foi mantido
até hoje em regime de solitária para que tu não saibas. Funerais, concertos,
festas de casamento, manifestações… parece não haver alvo que os drones
hesitem em bombardear. Segundo a «política de enfrentamento» a que a
Matriz de Disposição obedece, para além dos alvos, todos os «homens com
mais de 18 anos» que morram num ataque de drone devem ser designados
«combatentes». Danos colaterais é o que já se chamava às mulheres
e às crianças.
Daniel Hale vai ouvir a sentença de um juiz no próximo
dia 27 de Julho. Apesar de estarem na guerra como num videojogo, cada vez
mais operadores de drones têm vindo a público condenar as matanças do programa
de drones que Obama inaugurou, Trump expandiu e Biden continuou. Talvez por
isso, os EUA têm investido muitos milhões no desenvolvimento de drones
totalmente automatizados que, finalmente livres da interferência da
humanidade, cumpram ordens como os nazis de Nuremberga.
Daniel Hale não é como os nazis de Nuremberga. Os
responsáveis pelos crimes não foram sequer acusados, mas quem os denunciou
será preso. Como Julian Assange, Chelsea Manning e Edward Snowden, Daniel
Hale não perguntou o que podia fazer «pelo seu país», que agora o acusa de
traição, mas o que podia fazer pela humanidade. Se Daniel Hale não for um
herói americano, será um herói da humanidade.
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