domingo, 9 de setembro de 2012

"A gente não se reforma dos ideais"




O modo carinhoso como descreve esta militante comunista na Festa do Avante!, a sensibilidade e o carinho como a retrata, levou-me a que sem a sua autorização transcrevesse na íntegra este texto de Helena Teixeira da Silva no JN.

Festa do Avante” “A gente não se reforma dos ideais”.

João e Maria Cruz junto ao stand do PCP de Braga


Dançou até às quatro da manhã ao som da canção de Jorge Lomba, rapaz de Braga que viu crescer, mas que para ela será sempremenino”, menino que a leva às lágrimas. “De orgulho”.

Dona Maria dançou ontem e hoje as pernas pedem-lhe recato. As pernas, não a alma. É o elemento da família Cruz que o JN está a acompanhar no Avante!, mas que ainda não se tinha pronunciado.

Parece tímida, reservada, não é. nãogosta de aparecer”. Mas desafiada a fazê-lo, tem mil histórias para cantar. Encanta, canta, partilha a memória, a alegria, a luta.

Dona Maria é assim: mulher bonita, guerreira, trabalhou a vida inteira como cozinheira até ao dia em que uma operação ao coração a atirou para a reforma.

“Sou reformada, mas não dos ideais, que dessa luta uma pessoa não se reforma”, diz. Completa hoje 72 anos e o seu momento alto, antecipa, será quando depois de Jerónimo de Sousa discursar no encerramento da festa, começar a ouvir a Carvalhesa, hino adoptado pelo PCP.

Dona Maria canta para mostrar como é; “tan taran tan taran…”. “Ah, enche-me o peito, sei que vou chorar, choro sempre, vejo as pessoas todas, todas, menina, a cantar, e as lágrimas saltam-me”.

Saltam-lhe muitas vezes. Dona Maria tem o coração na boca, quatro filhos e três netos, quase todos presentes na Quinta da Atalaia. “A minha gente cresceu neste ambiente, sabe o que é a desigualdade, sabe que é preciso lutar por uma sociedade melhor.”

Leva as mãos ao peito: “são o meu orgulho, pois.” “Como o seu orgulho foi a primeira Festa da Alegria, realizada em Braga, fim dos anos 70, trinta mil camaradas na cidade, três comboios especiais com gente do Sul, ela a levar tachos e talheres de casa para ajudar, e cobertores e lençóis para fazer de cenário para as televisões.

“Acabaram-nos com a festa, pediam-nos um balúrdio para alugar o espaço, o partido não podia pagar”, explica. A última edição foi realizada mesmo à porta da Câmara, Mesquita Machado, o presidente, mandou chamar a polícia e tudo.

Mas ela não é mulher de guardar rancores. Guarda o momento em que Paulo de Carvalho cantou: “Nãomachado que corte a raiz ao pensamento.”

2 comentários:

Maria disse...

Saio daqui com sal a sair-me pelos olhos, comovida...
Porque o que a gente sente nestes três dias que dura a Festa só nós é que entendemos!

trepadeira disse...

Uma festa que é sempre um reinício de marcha para a vitória.

Um abraço,
mário