quinta-feira, 6 de dezembro de 2012

Primeiro poema para a manhã - Joaquim Benite

 
Pág. Juvenil República 11.608 – 7-5-1963

Primeiro poema para a manhã

Agora sou a criatura que prepara as asas para o voo
sou o chefe da estação que se esqueceu de apitar
sou a beata que falhou na missa
aparentemente o barro solto num jardim
perdido perdido
na imensidade das mãos
das curvas e dos sons das névoas que elas traçam
Sim hoje amor a tarde ou a manhã de nunca
hoje as balas o sangue a confusão
decisivas horas que se arrastam sem cor
e cerram janelas pombas de luto vermelho
Agora a partida com aviões silenciosos
aéreos e possíveis os desejos
a dança a enxada
o campo juncado de berros oceânicos
as trevas a noite grandes infindáveis
e na sombra das casas
a luz brilha
e a esperança nasce
no grito do miúdo da quinta geração de estátuas
nas asas do primeiro anti-porteiro
Agora hoje choro sinto
o canto sobe
e há arestas quebradas
montras sem vidros
e bolos agorabolos pão
e fome saciada
sou como um café
de muitos agrupados muitos de comboio e sempre direitos
Na metamorfose fatal o grito assoma
a criança rompe a dieta o leito
e pela primeira vez
é um chefe de estação esquecido
uma beata revoltada
 
JOAQUIM BENITE



3 comentários:

Graciete Rietsch disse...

Mais um grande poema que a censura salazarista não deixou passar.
Os seus tentáculos começam a estender-se e já vão criando o medo de falar!!!!

Um beijo.

Pata Negra disse...

Eles morrem todos! Eles morrem todos!
Eles morrem todos e deixam-nos tanto!
(lembrei-me do Zeca)
Também vou morrer e também quero deixar alguma coisa! Nem que seja apenas falar dos companheiros que nos deixaram tanto!
Um abraço que te deixo

Olinda disse...

Nao conhecia este poema de BeniteÊ um canto com uma posicao histôrica e social bem marcada sobre o paîs de entao.Gostei!