segunda-feira, 11 de julho de 2016

TRISTE É…


Triste é ouvir estes jovens vindos na sua quase totalidade da mais abjeta miséria, mas que hoje administram contas bancárias de milhões, entoarem uma canção de apologia à pobreza, tomando-a como seu hino. Canção nascida no apogeu do fascismo e recentemente recuperada.

Tudo podem ter os nobres
ou os ricos de algum dia,
mas quase sempre o lar dos pobres
tem mais alegria.

Não lhes nego o mérito, o esforço e a determinação, mas espero que alguns se apercebam da contradição em que os fizeram cair.

Minha Casinha  - 1943

Que saudades eu já tinha
da minha alegre casinha
tão modesta como eu.
Como é bom, meu Deus, morar
assim num primeiro andar
a contar vindo do céu.

O meu quarto lembra um ninho
e o seu tecto é tão baixinho
que eu, ao ir para me deitar,
abro a porta em tom discreto,
digo sempre: «Senhor tecto,
por favor deixe-me entrar.»

Tudo podem ter os nobres
ou os ricos de algum dia,
mas quase sempre o lar dos pobres
tem mais alegria.

De manhã salto da cama
e ao som dos pregões de Alfama
trato de me levantar,
porque o sol, meu namorado,
rompe as frestas no telhado
e a sorrir vem-me acordar.

Corro então toda ladina
na casa pequenina,
bem dizendo, eu sou cristão,
“deitar cedo e cedo erguer
dá saúde e faz crescer”
diz o povo e tem razão.

Tudo podem ter os nobres
ou os ricos de algum dia,
mas quase sempre o lar dos pobres
tem mais alegria.



2 comentários:

Rogerio G. V. Pereira disse...

O facto e o contexto
geram sentimentos diversos

gosto do expresso pelo José Goulão

«Os dirigentes portugueses não podem ignorar que na sua rectaguarda continua a existir um potencial de orgulho e mobilização com que podem contar para enfrentar estratégias injustas e ilegítimas que fazem sofrer o povo.»

cid simoes disse...

Carissssimo Amigo. Seja qual for o contexto é difícil ver jovens que ainda não devem ter esquecido o sabor da fome, hoje multimilionários cantarem a “alegria da pobreza”, não se apercebendo que pelo menos podem magoar os seus amigos de infância.
Um abraço solidário.