domingo, 26 de dezembro de 2010

Deus os fez...

Acabou-se o espectáculo. As malgas de sopinha a transbordar de piedade e amor estão vazias; na árvore de Natal as luzinhas deixaram de tremelicar; os carenciados voltaram às trapeiras e os cânticos natalícios deram lugar ao triste fado de todos os dias.

A igreja e os governantes trocam acusações e contabilizam as lágrimas vertidas pelos pobrezinhos.

E concluem que o Orçamento e Deus sabem.

Dona Abastança


«A caridade é amor»
Proclama dona Abastança
Esposa do comendador
Senhor da alta finança.

Família necessitada
A boa
senhora acode
Pouco a uns a outros nada
«
Dar a todos não se pode.»

se deixa ver
Que não pode ser
Quem
O
que tem
Dá a
pedir vem.

O bem da bolsa lhes sai
E sai
caro fazer o bem
Elaele subtrai
Fazem
como lhes convém

Ela aos pobres dá uns cobres

Ele incansável vai
Com o que tira a quem não tem
Fazendo
mais e mais pobres.

se deixa ver
Que não pode ser
Dar
Sem ter
E
ter sem tirar.

Todo o que milhões furtou
Sempre ao bem-fazer foi dado
Pouco custa a quem roubou
Dar pouco a quem foi roubado.

Oh engano sempre novo
De
tão estranha caridade
Feita com dinheiro do povo
Ao
povo desta cidade.

Manuel da Fonseca

In ‘Poemas para Adriano’Posted by Picasa

3 comentários:

Fernando Samuel disse...

Acabou-se o espectáculo - para o ano há mais do mesmo...


Um abraço.

José Augusto Nozes Pires disse...

muito bom este post.

Graciete Rietsch disse...

É verdade. Caridadezinha feita com o dinheiro tirado ao Povo. Essas empresas de caridade obtêm enormes lucros. Porquê? Para onde vai o seu apoio quando são chamadas dar o seu voto?
Estou cansada dos jornais, da televisão, dos que se deliciam com a caridade.

Um beijo.