sexta-feira, 29 de maio de 2026

Gestos que ficam

 

Quem se não lembra do Centro de Trabalho da António Serpa e da azáfama que por lá se vivia? Reuniões até às tantas da manhã, conferências, debates… camaradas entrando e saindo, num constante rodopio, salas repletas de cartazes, cola, pincéis, tintas. Um verdadeiro Centro de Trabalho,!...

Em contraste com as amplas instalações, a cozinha era minúscula e vetusta, com lava loiças de pedra e chaminé a condizer. Localizada nas traseiras do andar, dava para uma escada de salvação, que como tarefa de segurança mantínhamos sempre sob vigia.

Porque se iria realizar uma reunião, não posso recordar a que nível, foram convocados uns tantos camaradas para tarefas de apoio, entre os quais me encontrei.

Na cozinha, sobre uma mesa, estavam os pratos, um cestinho com pão e os talheres na gaveta, um pano da loiça junto à chaminé e sobre o fogão um tacho com arroz de ervilhas e uma travessa com pastéis de bacalhau. Chegada a hora de almoço, cada um de nós deu início, ao pantagruélico repasto, de pé, como se nos encontrássemos num qualquer festival, com a pequena diferença de que, à medida que terminávamos a refeição, lavávamos os nossos pratos e talheres, deixando tudo em condições para que outros camaradas pudessem encontrar a cozinha pronta a servir outra refeição. O camarada Álvaro, como qualquer um de nós, e porque não, chegou, serviu-se e, quando se aproximou para lavar o prato e o talher que utilizara, um outro camarada que estava lavando a loiça de que se servira, e porque estava com as mãos na massa, como é costume dizer-se, estendeu o braço para pegar no prato do Álvaro Cunhal que delicadamente declinou a atenção, lavando e enxugando a sua loiça, deixando tudo como qualquer um de nós devia proceder.

São também estes pequenos gestos, aparentemente sem importância, que desenham e caracterizam a personalidade de um indivíduo e servem de exemplo, sobretudo para os que não se consideram iguais a todos os outros.

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