domingo, 4 de julho de 2010

VÃO-SE EMBORA - Mahmud Darwish

A Liberdade do Povo Palestino é também a nossa e o seu sofrimento também por nós sofrido.

O nazissionismo continua impune o genocídio perpetrado sobre este povo que resiste.

Não podemos nem devemos esquecer ou aceitar os crimes que os sionistas com a conivência dos governos seus vassalos continuam a cometer contra um povo indefeso.

Esta semana “as palavras são armas” publicará poemas de resistência de Mahmud Darwish que viu ser destruída pelas tropas de Israel a aldeia onde nasceu.

VÃO-SE EMBORA

Passageiros entre palavras fugazes:
carreguem os
vossos nomes e vão-se embora,
Cancelem as vossas
horas do nosso tempo e vão-se embora,
Levem o
que quiserem do azul do mar
E da
areia da memória,
Tirem todas as
fotos que vos apetecer para saberem
O
que nunca saberão:
Como as pedras da nossa terra
Constroem o tecto do
céu.

Passageiros entre palavras fugazes:
Vocês têm espadas, nós o sangue,
Têm o
aço e o fogo, nós a carne,
Têm
outro tanque, nós as pedras,
Têm gases lacrimogéneos,
nós a chuva,
Mas o céu e o ar
São os mesmos para todos.
Levem uma
porção do nosso sangue e vão-se embora,
Entrem na
festa, jantem e dancem…
Depois vão-se embora
Para nós cuidarmos das rosas dos mártires
E vivermos
como queremos.

Passageiros entre palavras fugazes:
Como poeira amarga, passem por onde quiserem, mas
Não passem entre nós como insectos voadores
Porque temos guardada a colheita da nossa terra.
Temos
trigo que semeámos e regámos com o orvalho dos nossos corpos
E temos
aqui o que não vos agrada:
Pedras e pudor.
Se quiserem, levem o
passado ao mercado de antiguidades
E devolvam o
esqueleto à poupa
Numa
travessa de porcelana.
Temos o
que não vos agrada: o futuro
E o
que semeamos na nossa terra.

Passageiros entre palavras fugazes:
Amontoem as vossas
fantasias numa sepultura abandonada

e vão-se embora,
Devolvam os
ponteiros do tempo à lei do bezerro de ouro
Ou ao horário musical do revólver
Porque aqui temos o que não vos agrada. Vão-se embora.
E temos o
que não vos pertence:
Uma
pátria e um povo exangue,
Um país útil para o olvido e para a memória.

Passageiros entre palavras fugazes:
É
hora de vocês se irem embora.
Fiquem
onde quiserem, mas não entre nós.
É
hora de se irem embora
Para morrerem onde quiserem, mas não entre nós
Porque nós temos trabalho na nossa terra
E
aqui temos o passado,
A
voz inicial da vida,
E temos o
presente e o futuro,
Aqui temos esta vida e a outra.
Vão-se
embora da nossa terra,
Da
nossa terra, do nosso mar,
Do
nosso trigo, do nosso sal, das nossas feridas,
De
tudo… vão-se embora
Das recordações da
memória,
Passageiros entre palavras fugazes.

Mahmud Darwish

2 comentários:

José Augusto Nozes Pires disse...

Uma boa semana com Mahmud Darwish.

Graciete Rietsch disse...

Lindo poema. Cheio de dor e resitência.
Um abraço.