quarta-feira, 9 de setembro de 2009

Mãos sujas


estas são as mãos que o trabalho dignifica

Pedi-lhe a mão, entenda-se, pedi-lhe mais precisamente para lhe analisar as mãos. Tomei-as entre as minhas e, apetrechado dos cinco sentidos que nos constroem, fui apreciando a melhor expressão do que somos: As mãos -- onde nascem os anjoscomo no clímax de inspiração, as definiu o poeta.

Harmoniosas, de pele aveludada, flexíveis, mas firmes, possuindo carácter próprio, dir-se-iam concebidas num conúbio de deuses e acariciá-las era um excitante exercício de prazer. Os grandes mestres de pintura clássica não as rejeitariam nas suas mais brilhantes telas; no extremo dos dedos, longos de formosura inebriante, o vocábulo unha, pela agressividade que traduz, perdia sentido em obra tão finamente acabada de onde exalava o suave odor de momentos raros em que o olfacto se perde em devaneios.

Que têm feito estas mãos? Que segurança nos dão? O que poderemos esperar delas além da excitação estética que nos produzem? Serão assim cantadas porque, vivendo das mãos alheias, nada cultivam, nada constroem, não passando de puro ornamento?

Serão estas as mãos que tanto preocupam os nossos governantes e que servem de pretexto para arrastar, diariamente, a Ministra da Gripe a todos os canais televisivos?

Nos spots difundidos pelas ondas hertzianas, por cabo ou pela NET, sem esquecer o audiovisual, o alarme chega a todos os lares: “Lavem bem as mãos!”. Especialistas em processos de lavagens a todos os níveis, médicos, conferencistas, politólogos (não sei a que propósito, mas estes especialistas nunca faltam à chamada) economistas e os omnipresentes comentadores, todos, sem excepção, recomendam e ensinam como devemos proceder para manter as mãos limpinhas e esclarecem que está nesta medida higiénica a nossa salvação, como se fossemos um povo de javardos e hidrófobos.

O que não fica esclarecido, nem creio que haja para alguns interesse em esclarecer, é a que tipo de “mãos sujas” se referem.

As do narcotraficante que usurpou a presidência da Colômbia e que, além de ter contraído o vírus porcino, tem as mãos sujas de sangue?

Ou qual a diferença entre as mãos calejadas de um trabalhador do campo ou da oficina, mãos que respiram dignidade, e muitos hesitam em apertar, e as mãos reluzentes de unhas tratadas do traficante ou do banqueiro usurário, ou ainda do eclesiástico a quem beijam a mão que absolve o poderoso e arrecada as dádivas dos necessitados.

As mãos impõem respeito pelo que constroem, construindo-nos. Um povo que se respeite tem hábitos de higiene, não necessitando que, de cinco em cinco minutos, os enxovalhem lembrando-lhes preceitos elementares.

Raramente as mãos são glorificadas para que o trabalhador manual, tal como o designam, não ouse pensar que é o actor essencial na comunidade e lute para exigir o lugar que lhe compete na sociedade que, desde sempre, vem construindo.

Fazem-se conjecturas sobre a gripe que, supostamente, atingirá dez por cento da população e toda a máquina governativa se perfila como se preparada estivesse para uma guerra. Entretanto, o exército de desempregados atinge os dez por cento e vai engrossando, diariamente, e no seu seio se instalou o vírus da miséria que leva ao desmembramento familiar e arrasta os mais débeis ao suicídio.

Desemprego e miséria, vírus que nos flagela e que mina a sociedade, aparece-nos nas frias e enganadoras estatísticas e a vacina para o combater voga no campo das intenções, a longo prazo, e denomina-se: Hipocrisia!

1 comentário:

José Augusto Nozes Pires disse...

Excelente texto, muito bem escrito além do mais.