quarta-feira, 13 de fevereiro de 2013

SÁBADO 16 FEV. TODOS À RUA!


A pobreza, e a obediência quem a conserva é por força.”
Matias Aires
(Reflexões sobre a vaidade dos homens)
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As imagens gravadas a fogo de emoção instalam-se, com tamanho vigor na memória, que delas dificilmente nos podemos libertar:
Calçada íngreme, o macho, atrelado à carroça repleta de pedra tentando conquistar o percurso impossível, as ferraduras sem apoio faiscando, e o animal impotente não conseguia avançar. O carroceiro, dando ao termo o significado mais pejorativo, praguejava e de chibata em riste flagelava, a golpes de raiva incontida, o animal indefeso. Numa tentativa para continuar a marcha, as patas dianteiras fraquejaram, ficando ajoelhado, preso aos varais, como alguém que implora piedade. Celerado, o monstro desce da carroça e com o cabo do chicote descarrega toda a brutalidade sobre o animal prostrado, procurando que o pobre se levante para continuar o calvário, e, porque não o consegue, num paroxismo de barbárie, com ambas as mãos em tenaz, agarra o focinho do macho e morde-o demorada e ferozmente.
Pareceu-me que o animal chorava; eu, que ainda nem sequer frequentava a primária, fugi soluçando. A imagem persegue-me sempre nas horas de injustiça que, na generalidade, se abate sobre os mais fracos.
Passados alguns anos, na primavera da minha juventude, deparo com um polícia que espancava com o cassetete um bêbado que nem forças tinha para se levantar. Intervim! Fui preso juntamente com o ébrio. Julgado sumariamente e condenado a dez dias de prisão; impulso decisivo para consolidar opções e solidificar, para sempre, a revolta consciente.
A personalidade baliza-se por miríades de aparentes pequenos nadas e, assim, aos poucos, vamos construindo a escala de valores que, uma vez assumida, forçoso é cumpri-la. E é neste compromisso que encontramos o nosso próprio equilíbrio.
Sempre recusei partilhar com o carroceiro ou o polícia de então o caminho deslizante para a ignomínia, colocando-me na rampa íngreme e difícil a caminho da justiça e da liberdade.
Hoje, assisto e resisto aos golpes de chicotes-lei, revestidos de pergaminhos democráticos, onde os poderosos zurzem aqueles que lhes puxam a carroça dos cifrões com vocábulos melífluos e, sem escrúpulos nem piedade, tentam impor-lhes caminhos escorregadios atulhados de fraudes, a caminho da burra dos banqueiros.
Em nome da modernidade, dilata-se e aprofunda-se, cada vez mais, o fosso entre os que nada têm e os que tudo açambarcam, a classe média, os pequenos comerciantes, agricultores e industriais junta-se aos assalariados para onde, aos poucos, vão escorregando também as profissões liberais. E todos estes trabalhadores, para que possamos ser competitivos, deverão nivelar salários e direitos, dolorosamente conquistados, pelos dos países onde se trabalha por dez réis de mel coado. E dentro de uma lógica redutora, escabrosa, desumana, para sermos cada vez mais atractivos aos investidores, teremos que nos despojar de tudo o que nos distingue da pobre besta que me fez chorar.
O talentoso Alphonse Daudet, na colectânea de contos reunidos emLettres de Mon Moulim’ brinda-nos comLa mule du Pape” a qual com ou sem rancor, esperou sete anos para, no local exacto e no momento preciso, usar a única mas poderosa arma que lhe fora concedida: o coice.
Não percamos a esperança; há em cada um de nós a paciência e a força da célebre mula papal, com uma importante diferença: hoje tudo se passa a grande velocidade.
Os carroceiros chegaram ao poder, há que afinar o coice.
É URGENTE!
 



4 comentários:

Graciete Rietsch disse...

Que belo texto.
Lê-lo, impõe logo a vontade e a necessidade de ir preparando o coice, não faltando à manifestação de sábado.

Um beijo.

Olinda disse...

Vamos ver o tamanho do coice no prôximo sâbado....

Pata Negra disse...

Texto bem "cidado", gostei de o ler e de o viver. Uma abraço, para amanhã já desmarquei todos os compromissos.

José Augusto Nozes Pires disse...

Comovente texto que exprime o destino escolhido de uma vida.Quando vivi em Moçambique, assisti, era um adolescente, a um grupo de energúmenos brancos a fingirem que violavam uns petizes negros. As crianças choravam, os brancos galhofavam. Levei a mão ao cinto, uma fração de segundo para decidir espancar deles e ser espancado por todos eles. Esse "instinto" é a moralidade.