
Quem se não
lembra do Centro de Trabalho
da António Serpa e da azáfama que por lá se vivia? Reuniões
até às tantas da manhã,
conferências, debates…
camaradas entrando e saindo, num constante rodopio, salas repletas de cartazes,
cola, pincéis, tintas.
Um verdadeiro
Centro de Trabalho,!...
Em contraste
com as amplas instalações,
a cozinha era
minúscula e vetusta,
com lava
loiças de pedra e chaminé
a condizer. Localizada nas traseiras
do andar, dava para uma escada de salvação, que
como tarefa
de segurança mantínhamos sempre
sob vigia.
Porque se iria realizar
uma reunião, não
posso recordar a que
nível, foram convocados
uns tantos camaradas
para tarefas
de apoio, entre
os quais me
encontrei.
Na cozinha,
sobre uma mesa,
estavam os pratos, um
cestinho com pão
e os talheres na gaveta,
um pano
da loiça junto à chaminé
e sobre o fogão
um tacho
com arroz
de ervilhas e uma travessa
com pastéis de bacalhau.
Chegada a hora
de almoço, cada
um de nós
deu início, ao pantagruélico
repasto, de pé,
como se nos
encontrássemos num qualquer festival, com a
pequena diferença
de que, à medida
que terminávamos
a refeição, lavávamos os nossos
pratos e talheres,
deixando tudo em
condições para
que outros
camaradas pudessem encontrar
a cozinha pronta
a servir outra
refeição. O camarada
Álvaro, como qualquer
um de nós,
e porque não,
chegou, serviu-se e, quando se aproximou
para lavar o prato e o talher
que utilizara, um
outro camarada
que estava lavando a loiça de que se servira, e porque
estava com as mãos
na massa, como
é costume dizer-se, estendeu o braço
para pegar no prato do Álvaro Cunhal que
delicadamente declinou a atenção, lavando e enxugando a sua
loiça, deixando tudo como qualquer um de nós devia
proceder.
São também
estes pequenos
gestos, aparentemente
sem importância,
que desenham e caracterizam a personalidade de um
indivíduo e servem de exemplo, sobretudo para os que não se consideram iguais
a todos os outros.