quarta-feira, 4 de janeiro de 2012

VIDA DE SAPO

VIDA DE SAPO

Meio-dia. No lamaçal dos feijoeiros, o sapo, ainda ensonado, trabalhava. As formigas, aproveitando os caniços derrubados, encurtavam caminho numa lufa-lufa estonteante. Não muito longe, no brasido do feno, as cigarras espalhavam um cântico acre.

De catadura triste, o jovem sapo, que só de noite trabalhava, cansado por tantas horas suplementares, deteve-se para melhor ouvir a cantoria, sentindo ele, também, vontade de entoar uma modinha.

Quando os sapos cantarem em coro como as cigarras, pensou, quais Chaliapines, farão estremecer o povoado. E, de modo desajeitado sorria, enquanto divagava sobre o que seria a vida, mesmo a de um sapo, se o folgar fosse o justo prémio do seu labor.

“Se o folgar fosse também o justo prémio do labor! …” Este luminoso embrião de consciência surgira não sabe bem como.

Será que a consciência brota da reflexão assim de modo expontâneo, ou tem fortes alicerces em tudo o que nos rodeia, na vida, em suma?

Teria sido esse acto impensado, embora natural, de questionar a existência, que lhe dera o prenúncio de satisfação jamais sentida?

Olhou as formigas e voltou a ficar deprimido. Para quê tanta azáfama? “É uma loucura”, disse a meia voz.

No coaxo do mais velho dos companheiros leu reprovação: “A vida de sapo é como a das formigas, temos outro ritmo mas a mesma sina”. Sentenciou.

O som estridente das cigarras tornara-se-lhe num zunido dorido, frémito insuportável, quase uma maldição. Porque é que as cigarras, que em nada ajudam o agricultor, viviam à tripa forra, enquanto ele trabalhador forçado, de utilidade incontestada tinha sina diferente?

As contradições são o húmus em que melhor se desenvolve e fortalece a consciência. Apercebeu-se que não sendo alheio ao que se passava em seu redor, questionando e questionando-se, tornava-se diferente e nada em seu redor voltava a ser igual.

Pensar, reflectir, que esforço e espinhosa caminhada para o desassossego! Horrível dilema o seu: viver acachapado na dormência de todos os dias, ou sair para a claridade da razão onde habita a intranquilidade?

E tu camponês amigo, companheiro de infortúnio, que pensas de tudo isto? Perguntou o sapo soerguendo-se pela primeira vez.

A minha sorte está ligada à tua, camarada. Com o teu suor o mato hostil dá lugar à horta, pequenos paraísos de onde brotam as novidades que te ajudo a criar, e, não obstante, o nosso fado é só de sofrimento e intranquilidade.

Todos os outros sapos iam queimando a existência como espectadores da vida e de “novelas” imbecis, enquanto as cigarras cantavam.

Em horas de maior sofrimento lamentavam-se, aceitando a dor como um destino, e as cigarras riam.

As “novelas” e o seu próprio viver baixavam ainda mais de nível, levando a que os sapos se imiscuissem em “argumentos” canalhas de uma dita “vida real”, e as cigarras no seu canto de escárnio entravam em delírio.

A culpa não é das cigarras, é de sua natureza cantar. Enquanto não questionarmos a nossa existência, pensou o sapo, as cigarras folgarão sobre o nosso suor. Impunes!?

segunda-feira, 2 de janeiro de 2012

Nunca fomos tão grandes!...


Mensagem de fim de ano. Só lendo se acredita.


«Portugal é maior do que a crise que vivemos.»

Cavaco Silva 1/1/2012

Nunca fomos tão grandes!...

Mensagem surreal, equiparada às do seu mestre Tomaz. Este Américo II, julga-se na Quinta da Coelha cavaqueando com a vizinhança.

O Presidente da República dirigiu-se este domingo aos portugueses.

Boa noite,

A todos os Portugueses desejo um Bom Ano Novo, feito de paz e de esperança.

No plano social, o ano de 2011 marcou profundamente a vida de muitos Portugueses e deixou, um pouco por todo o lado, a marca dolorosa do desemprego, das dificuldades económicas e da angústia perante o futuro. No ano que agora começa, as dificuldades não irão ser menores. Esta é uma realidade que não pode ser iludida.

A todos os Portugueses desejo um Bom Ano Novo, feito de paz e de esperança.

As previsões oficiais apontam para uma queda acentuada da produção nacional e para o aumento do desemprego.

A todos os Portugueses desejo um Bom Ano Novo, feito de paz e de esperança.

É crescente a convicção de que neste ano de 2012 se irão exigir grandes sacrifícios ao comum dos Portugueses e que as dificuldades se farão sentir de forma mais acentuada no dia-a-dia das nossas famílias.

A todos os Portugueses desejo um Bom Ano Novo, feito de paz e de esperança.

Penso em particular nos desempregados, nos mais idosos e nos reformados, nos pequenos empresários que não resistem à crise, nas crianças cujos pais sofrem uma redução brusca dos seus rendimentos.

A todos os Portugueses desejo um Bom Ano Novo, feito de paz e de esperança.

Conheço a ansiedade de milhares de jovens para quem tardam os caminhos com que sonharam, muitos dos quais procuram a sua sorte longe da família e do seu País, quando tanto precisamos deles.

A todos os Portugueses desejo um Bom Ano Novo, feito de paz e de esperança.

Em 2012, o Presidente da República estará onde deve estar: ao lado daqueles que necessitam de apoio, levando-lhes uma palavra de solidariedade e de esperança.

A todos os Portugueses desejo um Bom Ano Novo, feito de paz e de esperança.

A crise que Portugal atravessa é uma oportunidade para nos repensarmos como País. Orgulhamo-nos da nossa história e queremos continuar a viver de cabeça erguida.

A todos os Portugueses desejo um Bom Ano Novo, feito de paz e de esperança

Durante muito tempo vivemos a ilusão do consumo fácil, o Estado gastou e desperdiçou demasiados recursos, endividámo-nos muito para do que era razoável e chegámos a uma "situação explosiva", como lhe chamei há precisamente dois anos, quando adverti os Portugueses para os riscos que estávamos a correr.

Agora temos de seguir um rumo diferente, temos de mudar de vida e construir uma economia saudável.

Somos todos responsáveis. Esta é a hora em que todos os portugueses são chamados a dar o seu melhor para ajudar Portugal a vencer as dificuldades. Trabalhando mais e apostando na qualidade, combatendo os desperdícios, preferindo os produtos nacionais. Deixando de lado os egoísmos, a ideia do lucro fácil e o desrespeito pelos outros.

Nenhum Português está dispensado deste combate pelo futuro do seu País.

2012 será um ano de sacrifícios para muitos Portugueses. Mas será igualmente um ano em que a fibra do nosso povo virá ao de cima.

Não nos resignamos. Somos um povo que se agiganta quando as adversidades são maiores e mais difíceis de superar.

É nestas alturas que os Portugueses conseguem ultrapassar-se a si próprios e surpreender tudo e todos.

Eu acredito nos Portugueses. O civismo, a coragem e a serenidade com que têm enfrentado estes tempos difíceis são dignos de todo o respeito e de enorme admiração.

Portugal é maior do que a crise que vivemos.

Espero, do fundo do coração, que o ano de 2012 possa trazer a todas as famílias e a todos os Portugueses, onde quer que se encontrem, sinais de esperança de um futuro melhor.

A todos renovo os meus votos de um Ano Novo de Paz, Saúde e Felicidade.

Boa noite.

domingo, 1 de janeiro de 2012

O CANCRO

«Há duas maneiras de matar: uma que se designa abertamente com o verbo matar; outra, aquela que fica subentendida habitualmente sob este eufemismo delicado: “tornar a vida impossível”. É a modalidade de assassinato lento e obscuro, que requer uma multidão de cúmplices invisíveis. É um auto-de-fé sem chamas, perpetrado por uma inquisição difusa

Eugène D’Ors, La vie de Goya

Este governo é um cancro. Este executivo é um tumor maligno. Este governo faz circular por todo o tecido social as metástases que germinam no seu corpo apodrecido.

«O cancro é uma das doenças que perdem apoio total, a não ser em fases mais incapacitadas.» [dos jornais]. Ou seja, caso não tenham uma incapacidade acima de 60%.

Este governo, e toda a canalha que o continua a apoiar, deviam passar pelo IPO, viver e sentir os dramas que diariamente por ali circulam, se é que podemos esperar resquícios de sentimentos a gente robotizada.

Estes assassinos em série desceram ao mais baixo patamar da barbárie, fazendo retroceder o nível civilizacional alcançado ao longo de muitas gerações.