segunda-feira, 12 de dezembro de 2016

Peditórios de todo o país, univo-vos!

Fui buscar (aqui) ao "rei dos leittões) sem pedinchices



Já pedi coisas ao meu país que ele me deu. Eu também já dei coisas mas foi à pátria. Nem sempre dou quando me pedem mas não é por razões de coração, é por razões políticas. Não sou de dar por dar. 

Eu nunca tive brinquedos senão os que eu fazia ou os que o tio tocha da carpintaria, que morava ao fundo da ladeira onde eu vivia, me oferecia. Um dia, andei toda a feira agarrado à minha mãe a pedir-lhe aquela camioneta de lata que vira numa tenda, a mulher não aguentou a insistência, perdeu o amor à carteira - carvalho do chato do cachopo que nunca mais se cala! toma lá e não me chateis mais que é o primeiro e último que te dou!
Eu não emprestava a camioneta a ninguém. Se os outros cachopos se apanhassem com ela na mão era certo e sabido que a primeira coisa que lhe faziam era tirar-lhe as rodas. Nas minhas mãos aquela camioneta durou anos porque foi o primeiro e último brinquedo de compra que tive e só lhe tirava uma roda em caso de furo que fizesse parte da brincadeira.

Aquela camioneta foi conseguida com muita luta e outros meninos conhecedores da minha história conseguiram com o exemplo outras camionetas, tratores, bolas, bonecas e até trotinetes.

Quando participo em marchas de luta, levo sempre comigo uma razão de fundo de  justiça social e dou sempre pela falta de pessoas que conheço, sempre ativas em tudo o que é angariação de fundos para isto ou para aquilo. Constato depois que essa gente não está na mesma frente de combate, que o seu entendimento das razões da pobreza e das suas soluções é muito diferente da minha. 

E estou aqui eu com paninhos de azeite, a enrolar o texto para não ferir voluntariosos cidadãos que pedem para causas maiores, quando a minha vontade é registar que eu para dar não preciso de mãos de terceiros e que, acima de tudo, estou farto de Peditórios, porra!

É à entrada e à saída do emprego e lá dentro a colega irresistível, é à entrada e saída do supermercado e lá dentro o produto com a esmola incluída no preço, é na feira, é na rua, é nos semáforos, é o filho que traz umas rifas da professora de cidadania, é a funcionária da escola a vender broches/crachás para uma turma que quer ir a roma, é o cunhado que é sócio da associação columbófila, é a sogra da conferência de são vicente paulo, a vizinha bombeira, é campanha, é sorteio, é a santa de fátima, é o relógio para a igreja, é contra a fome, o cancro e a cegueira, é pelas crianças, pelas mães solteiras e pelos idosos e, sobretudo, por aqueles que não têm condições económicas para passar um natal feliz porque o natal é economia, é dinheiro, é consumo, é uma porra, o natal é uma porra!

Vamos lá então fazer um natal em que o povo vem à rua e reclama por um natal em que nunca mais seja necessário pedir! Vamos lá, porra!
Ah não! Não pode ser! O natal é de paz! Temos de nos dar bem com todos não é? O jesus é que diz!... porque o natal, mais do que uma ocasião dos mais necessitados receberem alguma coisinha, é a época em que se dá aos mais ricos a oportunidade de se redimirem, organizando peditórios e quem sabe até largarem uns cobres.

Façam como os capitalistas, concentrem a atividade, façam um império do ramo, cotem-no em bolsa - olhem a santa casa da misericórdia! - façam  um único e grande peditório porque já não há paciência para tanta caridade natalícia.

domingo, 11 de dezembro de 2016

A AURA TIÑOSA


A AURA TIÑOSA

Uma jovem italiana, confirmei; vivendo em Londres, disseram-me; deitada de costas na mesa de recuperação, observa através da estrutura vidrada do ginásio, uma ave imponente que se destacava nos céus de Havana: A aura tiñosa.

Apercebi-me da “provocação” nas lágrimas que lhe deslizavam pela face e se perdiam nos cabelos. A aura, além de evidenciar as nossas limitações, alertava-nos para as humanas fragilidades, remetendo-nos ainda para a reflexão em nós tão pouco frequente, principalmente quando tudo nos corre de feição.

Um acidente de aviação, avião particular que se deslocava de Londres para Espanha onde ia assistir a uma festa - gente abastada, obviamente - deixou-a presa a uma cadeira de rodas. E porque recursos não lhe falta, de uma clínica em França transita para uma outra na Suíça onde os meios técnico-científicos são, forçosamente, o que há de mais moderno, ou não fosse terra de bancos ajoujados, em que o dinheiro sujo, ou melhor dizendo, manchado se sangue, espalha o aparente bem-estar.

Nada lhe falta! e no entanto... a tristeza, o desalento, o esboroar de sonhos em construção, transbordava pelo rosto suave dessa jovem de vinte e um anos.

Na estéril, fria e daqui longínqua Suíça, com todos os bens materiais que o mais exigente ser humano pode ambicionar, não foi possível comprar um simples sorriso, nesse país de afectos esterilizados, onde a alegria desde há muito repousa em frascos de formol.

Vi-a chegar: pálida, frágil como uma pequena ave apanhada pela refrega. Observo-a: distante como que pelo absurdo a paraplegia não lhe dissesse respeito; faz os movimentos de recuperação sem interesse, mais: que os outros os façam por ela. O trauma está bem vivo. Na acética, austera e formal Suíça, repetiram-lhe vezes sem conta: a sua vida vai ser na cadeira de rodas, adapte-se, e, já agora, digo eu, não se esqueça de deixar na caixa os mil e duzentos euros por dia.

Veio para Cuba. A Beatriz, profissional competente e atenta tanto ao estado de saúde física como psíquica do paciente que lhe foi indicado recuperar, vai cumprindo os exercícios que lhe deve ministrar e, conversando naturalmente, como se estivesse, e estava fazendo o que há demais natural, não retém a gargalhada oportuna, nem se inibe do dichote ou da conversa brejeira com uma jovem de Porto Rico com patologia semelhante, mas determinada.

O ambiente é cordial e a música cubana não deixa ninguém indiferente, envolvendo todos, mesmo os de esperança adiada. A recuperação da jovem italiana é lenta a todos os níveis e, sendo embora difícil extrair-lhe o esboço de um sorriso, timidamente o semblante descontrai-se abrindo-lhe o caminho.

A “salsa” dá o ritmo a uma nova vida, dos helvéticos fica a recordação do silêncio, de o tudo recheado de nada, das luzes reflectidas no aço inoxidável que nos transportam para os filmes de ficção científica.

O sol entra pelas vidraças do ginásio e acumulado que está no espírito desta gente, aquece o ambiente e os espíritos, distribuindo alegria e alento, húmus onde cresce a esperança.

O dia de hoje é de festa: ela mexeu um dedo de um dos pés! O pai, neurocirurgião, veio visitá-la; dez minutos, visita de médico. Ninguém poderá determinar até onde irá a recuperação; entretanto a confiança começa a ocupar o seu espaço para que a existência tenha sentido.

Observo-a de novo: de regresso ao ginásio, ânimo revigorado, aflora o primeiro sorriso; na mesa dos exercícios tenta esforçar-se; um negro gingão, fisioterapeuta também, acaba de chegar e dá-lhe um beijo. A naturalidade e a fraternidade entrelaçam-se, não há doentes nem sãos, pretos ou brancos, ricos ou pobres, há a participação técnica e afectiva de todos no esforço comum para encontrar os caminhos da vida.

E já nesse caminho, vereda ainda, ouve-se música, trabalha-se e, para os casos mais extremos ou para os que requerem menos cuidados a atenção não difere.

Só a aura tiñosa ensombra os céus de Cuba. Misto de ave de rapina e abutre, mantém-se atenta á mais pequena falha ou a qualquer movimento descuidado da sua potencial vítima. Além do mais os abutres não suportam a alegria dos povos, irrita-os a cultura e o saber, componentes essenciais da liberdade.

O vizinho tinhoso não desarma, gasta biliões de biliões em armamento sob o olhar perplexo de biliões de famintos e, na frieza dos seus desígnios, acaba de vetar a proposta de 143 países para que medicamentos essenciais à salvação de milhões de pessoas possam ser fabricados e vendidos a preços mais baratos.

A evidência, luz que deveria esclarecer, provavelmente encandeia obstruindo a realidade; para ser condescendente não encontro outra explicação.

Mas... Por favor! Alguns de vós, dispam-se de preconceitos e, com honestidade, enfrentem-na: a sempre eterna realidade!

Cuba 2003

sábado, 10 de dezembro de 2016

"Triste Amérique" ou o pesadelo americano



Uma excelente oferta, e ainda vai a tempo de o encomendar para o Natal
O democrata Tio Sam, e os seus homens-de-mão, não vão facilitar a tradução, mas tome nota. Os dados são recentes.
 
«Le pays de la course permanente au dollar, du chacun-pour-soi, sans pitié pour les pauvres. Où perdure un racisme rampant et meurtrier ; où tout le monde est armé et sous la surveillance de « Big Brother », dans la plus grande prison du monde. Le pays de la malbouffe, sans aucune sécurité alimentaire, où le climato-scepticisme s’enseigne dès l’école. Surarmé et en guerre permanente, sous le regard de Dieu, omniprésent.
Un inventaire argumenté, accablant, des bonnes raisons de détester une certaine Amérique, détaillé par un journaliste désabusé qui sillonne le pays depuis cinq ans. Et qui, correspondant de TF1, la télévision privée de M. Martin Bouygues, ne peut guère être soupçonné d’être un agent de la Corée du Nord.
Triste Amérique - Michel Floquet

quinta-feira, 8 de dezembro de 2016

O Papa Francisco, os media e os coprofílicos



Papa Francisco em cruzada contra os tabloides que associa a excremento
Em entrevista ao semanário católico Tertio, o Papa Francisco fustigou os media de forma, por ele admitida, contundente e desusada.
O Papa Francisco disse, cito: «A desinformação é provavelmente o maior mal infligido pelos media, porque ele orienta a opinião numa só direção, omitindo uma parte da verdade».
E a prova provada que assim é, encontramo-la na forma como esta afirmação nos é transmitida num dos jornais ditos de referência: “Francisco realçou que espalhar a desinformação é “provavelmente o maior estrago que os media podem fazer”, garantindo que este tipo de actividade em vez de educar o público é um pecado.”
Ao omitir que “os media orientam a opinião numa só direção, omitindo uma parte da verdade”, confirma as preocupações do Sumo Pontífice, que compara tabloides a uma forma de escatologia.

"Eu acho que os media devem ser mais claros, mais transparente e não cair, desculpem a expressão, na coprofilia sempre prontos para espalhar escândalos coisas abomináveis, independentemente da verdade," "E como as pessoas tendem a sofrer de coprofagia, isso pode ser muito perigoso", disse Francisco, e assim sendo:

A sanita é o lugar certo para os media.



"Je crois que les médias doivent être plus clairs, plus transparents et ne pas tomber, excusez l'expression, dans la coprophilie toujours prête à répandre les scandales des choses abominables, quelle qu'en soit la part de vérité." Et a ajouté: "Et comme les gens ont tendance à souffrir de coprophagie, cela peut être très dangereux".

«El Papa contra la coprofilia de los periodistas. Estamos de acuerdo.»