domingo, 15 de maio de 2011

A DEMOCRACIA DOS INDECISOS

"O homem é a consciência que tem dos seus passos."

Miguel Torga

Os que andam ao sabor da vaga e por temor dizem a tudo: sim senhor! Os que não sabem se sim se não e que, na altura de votar, ficam com o lápis na mão, tirando cara ou coroa para libertar a decisão. Esses são os que, nos momentos cruciais, colocam no prato da balança a governação. Digam lá que não!

Depois… depois berram: aqui-del-rei! Tirem-me deste inferno, não tenho nada a ver com isto; que sim e que não; quer dizer… pois claro; não tem de quê, ora essa!

Pobres distraídos que apanham sempre o comboio sem reparar no destino, ficando atarantados quando se apeiam na Campanhã convencidos que chegaram à Gare do Oriente.

São os que advogam que só os burros não mudam, que a democracia é isso mesmo, um carrossel com música barata para embalar vacilantes ao sabor da inércia, gente que voga na imponderabilidade das suas convicções.

É menos cansativo deixar-se ir na corrente do que fazer face à enxurrada de slogans e meias verdades que nos submergem de dejectos e lodo.

Convicções?… Quais convicções! Ao sabor do vento, assim, livres como os passarinhos. Que bonita imagem, enquanto não lhes caiem as penas.

Às ortigas o idealismo, viva a mediocracia; assim rotineiros e mansos, levados pelo baraço de ideias feitas para o redil ou circo, onde se divertem como palhaços sem qualidade ou equilibristas trapaceiros.

Atentos à inquisição mediática e seus dilectos vassalos, aprestam-se a lançar na fogueira tudo o que não reflecte a sua baça imagem. Enfermos de uma forte anognosia social, acarinham ciclicamente os que não cumpriram com as promessas feitas e os maltrataram com desvergonha e escárnio.

São gozados e disso não se apercebem, ou pior ainda, não se importam: a dignidade está-lhes nas solas dos sapatos. Temerosos, seguem cautelosos a própria sombra, não vá por enfado, deles se apartar nalguma bifurcação.

E porque não têm capacidade para pensar nos outros e, muito menos, para com eles se preocuparem, quando lançados na valeta entram em pânico por lhes faltarem as muletas que suportam o seu egoísmo e a bem-aventurada ignorância.

Os indecisos são seres rotineiros que encontram o seu equilíbrio na órbita de qualquer sistema com o qual se confundam.

Assim, se uma chispa rompe a escuridão, soltam-lhes os cães, procurando o incómodo que ousou apontar para o rei e repetir pela enésima vez que “vai nu!”.

Uma verdade simples, inócua, que não procura mais que evitar que sua majestade apanhe um resfriado ou gripe, ou ainda, quem sabe, alguma pneumonia.

De punho erguido gritamos: “o rei vai nu!”

Não estão a ver!?…

1 comentário:

José Augusto Nozes Pires disse...

valente crónica dos tempos que vão e foram. Sempre serão?